Adriano: ‘Não trabalho com toma lá dá cá’

​Prefeito de Cabo Frio faz balanço do mandato, projeta passos para 2019 e responde críticas e denúncias

Texto e foto: Tomás Baggio
Publicado em 29/12/2018 às 10:06

A vida do ortopedista Adriano Moreno mudou completamente há cinco meses atrás. De médico respeitado a prefeito de Cabo Frio, ele viu a rotina mudar dos consultórios para gabinetes, reuniões e negociações. Ele diz que não tem sido fácil. Ainda mais para quem venceu uma eleição suplementar e assumiu com a promessa de um mudança radical na política.

- Eu não trabalho com esse toma lá dá cá. É isso que eu estou mostrando para os vereadores. Os espaços para os vereadores que são conquistados são fruto do trabalho deles - afirma ele, que começou o governo com três vereadores na base, e atualmente, segundo as contas do líder do governo na Câmara, são 12 de um total de 17.

Nesta entrevista, Adriano faz um balanço dos primeiros cinco meses de mandato, fala sobre as conversas com o deputado Janio Mendes para uma possível composição política e responde às denúncias de irregularidades em licitações na saúde.

- Por eu ser uma pessoa simples, algumas pessoas entenderam que é uma  fragilidade. A banda não vai tocar assim de jeito nenhum. Não confunda educação com subserviência - diz o prefeito.

Veja a entrevista completa.

Folha dos Lagos – Qual é a sua avaliação deste primeiro ano no governo?

Adriano Moreno – Estamos com pouco mais de cinco meses de governo. Peguei a cidade totalmente desestruturada política, econômica e administrativamente, com pouquíssimos recursos e o orçamento estourado. Começamos a trabalhar no sentido de levantar a dívida, que é de R$ 1,3 bilhão com o funcionalismo, precatórios, Receita Federal, etc.Traçamos prioridades para pagar as dívidas e começamos a ter arrestos da Justiça por causa dos precatórios que a Prefeitura vinha empurrando com a barriga há anos. Para minha surpresa, foi eu entrar e a Justiça começou a bloquear os recursos da Prefeitura. Comecei a entrar em pânico. Fui no Tribunal de Justiça e eles falaram que Cabo Frio era uma bagunça, negociava e não pagava. A Justiça bloqueou, no total, R$ 33 milhões dos R$ 147 milhões que a Prefeitura deve em precatórios. Além disso, a Prefeitura tinha R$ 19 milhões no Banco do Brasil de causas ganhas na Justiça, dinheiro que as pessoas que perderam foram depositando em juízo, e a lei permite usar até 70% para pagar precatórios. Usamos R$ 14 milhões para isso, então já pagamos R$ 47 milhões. Os outros R$ 100 milhões foram divididos em 72 vezes.

Folha – Com a questão dos arrestos resolvida, acredita que o governo poderá entrar em uma rotina de normalidade?

Adriano – Não. Agora podemos olhar melhor para o futuro, mas a situação financeira é muito ruim.

Folha – Considera que o governo está funcionando normalmente em termos de serviços prestados para a população?

Adriano – A gente avançou em alguns segmentos. Conseguimos manter a folha de pagamento em dia, que era a minha prioridade, e tinha o sonho que Deus abençoasse pra pagar o 13º integralmente. Isso não acontecia há anos. Estamos chegando em 2019 com dívidas de 2015 ainda. A saúde, com toda dificuldade, está funcionando bem. Também demos transparência ao colocar a folha de funcionários no site da Prefeitura. São medidas saneadoras que vão trazer uma certa credibilidade que foi perdida durante os anos. Tenho tentado coibir uma pratica terrível, um sistema perverso que havia na cidade. Quando entramos (no governo) vimos uma licitação de R$ 26 milhões para compra de medicamentos. Fizemos a mesma licitação por R$ 12 milhões. Tudo superfaturado. Sei que não consigo controlar 14 mil funcionários, é funcionário demais na prefeitura... alguns deslizes irão ocorrer mas estamos atentos. Quem for pego em ato ilícito será exonerado.

Folha – O que foi feito em relação a esta licitação? E a auditoria anunciada no início do governo, como ficou?

Adriano – Em princípio eu tinha a ideia que poderia contratar uma auditoria particular, chamar uma Fundação Getúlio Vargas, por exemplo, mas a lei não permite porque a Prefeitura tem os seus órgãos de fiscalização, e a própria Câmara é um órgão de fiscalização. Então fizemos a auditoria com a Controladoria do Município. Não temos poder de polícia, mas temos poder de encontrar irregularidades e mandar para o Ministério Público tomar as providências legais. Até o momento abrimos seis Tomadas de Contas (procedimento de investigação), e existem mais 15 processos com auditoria em andamento.

Folha – Voltando ao tema dos serviços. Porque os trabalhos de tapa buracos, troca de semáforos, entre outros, ainda estão sendo feitos com tanta lentidão?

Adriano – Peguei a cidade toda esburacada e não tinha recursos. Fui para o (Governo do) Estado pedir massa asfáltica. Tivemos ajuda do deputado André Ceciliano e do deputado Janio Mendes. Peguei os funcionários da Comsercaf e dos Serviços Públicos, que cuidam de jardinagem e tal, para tapar os buracos. Eles começaram a tapar, mas como não tinham muito conhecimento, a primeira chuva que veio desfez tudo. Conseguimos uma pessoa especializada para orientar e continuamos a tapar os buracos. No segundo distrito, a Rua das Pacas estava com tantos buracos que tivemos que asfaltar a rua toda. Para o ano que vem vamos fazer uma licitação para contratar uma empresa para tapar os buracos de forma permanente. Em relação aos semáforos, para trocar todos custa mais de R$ 600 mil e não temos recurso agora. Quando tivermos, vamos trocar. Mas a manutenção está sendo feita, só a aparência deles que está horrível.

Folha – Nesta semana, o vereador Rafael Peçanha divulgou uma denúncia em relação ao Hospital da Mulher, sobre a acompanhante de uma grávida que relatou uma situação muito ruim, de falta de higiene, equipamentos e insumos básicos. Ela falou inclusive que um feto morto teria sido colocado em uma garrafa PET. Qual é a situação do Hospital da Mulher?

Adriano – Essa pergunta é ótima. Algumas pessoas não querem que a cidade melhore. Fazer críticas infundadas ou inverídicas é a coisa mais fácil do mundo. Hoje o Hospital da Mulher segue um protocolo internacional. Chegou a ser ventilado que o Hospital da Mulher é o que mais manda paciente pra casa, então é preciso tirar esse factoide que se jogou na cidade. A paciente quando chega passa por uma análise e só fica internada se houver necessidade. Se não está em trabalho de parto e não tem complicações é melhor aguardar em casa, porque se não vai ocupar um leito sem necessidade e tirar a vaga de quem chega com mais urgência. É um hospital com alta rotatividade porque trabalha de portas abertas e recebe pacientes de todos os municípios. Iguaba não tem maternidade, em São Pedro é precária, a de Arraial está fechada... essas crianças estão nascendo onde? Na rua? Na beira da praia? Na Praia Grande com o 'boto rosa' parindo essas crianças? Esses municípios vizinhos não têm estrutura e sabem que estão cometendo coisa errada, porque trazem as gravidas quase em período expulsivo (quado o neném já está para nascer), param a ambulância na esquina e mandam elas entrarem a pé no hospital.

Folha – E em relação à denúncia?

Adriano – Aquilo foi uma situação armada e mentirosa. Nenhum hospital entrega feto morto para a mãe. Essa paciente chegou com feto morto por um processo infeccioso, foi feito o procedimento de curetagem, para fazer a raspagem do útero, e esse material é entregue para a família levar a um laboratório para fazer exames. Isso foi entregue em um frasco de soro cortado com formol, e não foi no café da manhã. A acompanhante quando chegou armou uma mesa com aquele material e o café da manhã para tirar a foto. 

Folha – O mesmo vereador protocolou denúncias recentemente no Ministério Público sobre o contrato de aluguel de ambulâncias  e sobre a compra emergencial de medicamentos, com dispensa de licitação? Todas as denúncias são infundadas?

Adriano – Acho que as críticas quando construtivas são importantíssimas. Mas não é momento de subir em palanque para se promover. Não falo só para o vereador Rafael Peçanha, mas para todos que tiverem que ouvir nessa cidade. Acho que é o momento de união para tirar uma cidade destruída do buraco. É como se a gente estivesse dentro de uma casa pegando fogo, mas precisamos abrir a porta para não morrermos queimados. Depois de apagar o incêndio, vamos discutir política. Não vejo com rancor, vejo com tristeza. No caso dessas denúncias, ninguém se furtou a dar informação. Tanto é que todas as denúncias foram levadas antes ao Ministério Público. Para poder mostrar nossa lisura e transparência. Acho que poderia ter economia de papel e de tempo para canalizar para alguma coisa mais construtiva. Se você viesse e perguntasse se eu fiz uma compra emergencial, está tudo aqui. Levamos tudo para o promotor avaliar e está tudo nos conformes. As empresas que se credenciaram a participar estão aqui. Aquelas que vierem a conquistar o direito de fornecer vão ser investigadas se têm condições de fornecer. Isso é feito no segundo passo. O primeiro passo é aberto, você faz o edital e convoca as empresas para participar. Na hora de assinar, os órgãos competentes fazem a avaliação. Se estiver inidônea, é eliminada imediatamente. 

Folha –  No começo do governo houve críticas em relação à coordenação política, como vereadores reclamando de não serem recebidos. Mas após cinco meses o governo não vem encontrando dificuldades na Câmara, inclusive o líder do governo, vereador Vanderlei Bento, disse que a bancada do governo já é composta por 12 vereadores, o que garante uma maioria folgada nas votações. Como essas composições de cooptação de vereadores para a base do governo têm sido feitas?

Adriano – Eu tenho mantido uma relação institucional com a Câmara, tentado mostrar para os vereadores a importância de todos estarem trabalhando em prol de um objetivo só, que é melhorar as condições da cidade. No começo, como foi uma eleição extemporânea, houve uma sensação de ruptura, porque o outro prefeito tinha um modo diferente de agir, de conduzir a política. O que eu fiz foi conversar com eles e mostrar que a gente não tem tempo a perder e não podemos nos permitir a errar e devemos estar focados com um objetivo só, que pé melhorar essa cidade, gerar emprego e renda, até porque o modelo político que foi instalado nesse município se mostrou falido, fracassado, não só aqui como no Estado do Rio de Janeiro.  

Folha – Normalmente a relação entre Executivo e Legislativo se dá muito pela busca por espaço no governo. Há busca de espaço dos vereadores no governo? Há cessão de cargos nas secretarias para vereadores?  Como você vem conseguindo formar essa base que não tinha?  

Adriano – Não é com espaço no governo, através desse modelo antigo, não. Eu não trabalho com esse toma lá dá cá. É isso que eu estou mostrando para os vereadores. Os espaços para os vereadores que são conquistados são fruto do trabalho deles. 

Folha – O senhor nunca deu um cargo que um vereador pediu então?

Adriano – Não é isso. O que eu quero dizer é que o vereador, hoje, para trazer uma demanda, vai passar pelo crivo de qualquer pessoa, que é através de processo seletivo. Vamos fazer processo seletivo para todas as áreas, até para os cargos comissionados. Mesmo que ele (vereador) traga 50 pessoa maravilhosas para trabalhar, elas terão que passar pelo processo seletivo. E essas pessoas vão passar pelo mesmo crivo que o filho do seu João, que mora no Tangará. 

Folha – Isso tem funcionado?

Adriano – Não posso dizer que não encontro resistências.

Folha – Na semana passada o deputado Janio Mendes disse que foi convidado pelo senhor para fazer parte do governo. O secretário de Fazenda respondeu ontem que Janio não vai assumir nenhuma secretaria. O convite ao Janio existiu mesmo? E para que? 

Adriano – As portas estão abertas do nosso governo para as pessoas de bem e que querem ajudar a construir Cabo Frio. Eu tenho aqui várias pessoas dentro do nosso secretariado que são do PDT. Na secretaria de Administração, de Esportes, tivemos na Cultura. O Janio é uma pessoa que eu gosto muito, tenho um bom relacionamento com ele e foi um deputado atuante. Essa conversa [para ser secretario] não chegou a ocorrer, mas as portas estão abertas para Janio Mendes. Nós estamos em namoro, estamos conversando, desse namoro, pode até vir a ter um casamento. Mas ate o  momento estamos tendo uma boa relação, um bom contato, uma boa relação de amizade, isso eu posso afirmar pra você sem sombra de duvidas.  A minha relação com o Janio é a melhor possível, entendeu? As portas estão abertas. Ainda não houve nenhuma tratativa e nenhuma conversa nesse sentido de secretariado, nada disso. Mas as portas estão abertas porque eu entendo que a gente precisa de pessoas de bem para Cabo Frio.

"Nunca tive inimigos, hoje eu 
tenho vários”

Adriano Moreo, prefeito de Cabo Frio

Folha – Pensa em mudanças no secretariado no ano que vem?

Adriano – Neste momento, nenhuma.

Folha – Esta é a primeira vez que o senhor ocupa um cargo no Poder Executivo, já como prefeito. Como se sente, pessoalmente?

Adriano – Eu vou falar para você que esses cinco meses têm sido os mais difíceis da minha vida. Eu tenho hora pra chegar e não tenho hora pra sair. Sacrifico meu bem mais valioso, que é a minha família. Nunca tive nenhum inimigo, hoje eu tenho vários.

Folha – Sente que deixou de ser pedra e passou a ser vidraça?

Adriano – Nos primeiros dias eu fiquei um pouco fragilizado. Fiquei adoentado. Mas a minha formação familiar tem me sustentado muito, inclusive espiritualmente, e isso vai fortalecendo.

Folha – O senhor demonstra uma imagem de simplicidade, fala mansa, pontuada. Se estressa às vezes? Bate na mesa, se aborrece, grita, xinga?

Adriano – Xingo sim, xingo sim. Já fui ameaçado com arma. A pessoa (que ameaçou) se achava no direito que eu tinha que botar ele aqui (na Prefeitura) também. As pessoas que te ajudam (nas eleições), elas acham que você é obrigado a servi-las pessoalmente com cargos, empregos, mordomia, é uma loucura isso que se criou nesse pais. As pessoas perderam a noção. Graças a Deus não é a maioria. 

Folha – Essa visceralidade da politica te incomoda?

Adriano – O que me incomoda é uma cobrança pessoal, não pelo bem comum.  A politica não pode ser tratada pelo (lado) pessoal, tem que ser tratada pelo coletivo. Isso que me deixou doente no começo.

Folha – Esse jeito simples se confunde com falta de firmeza?

Adriano – Algumas pessoas podem entender desse jeito. Por eu ser uma pessoa simples, algumas pessoas entenderam que é uma  fragilidade. A banda não vai tocar assim de jeito nenhum. Não confunda educação com subserviência. Eu vim para cá para melhorar isso daqui. Estou pagando um preço muito alto. Vou fazer de tudo para dar certo. 

Folha – Quando a cidade via voltar a ter investimentos?

Adriano – Acredito que agora em 2019, com orçamento próprio, a gente vai conseguir ter grandes avanços.  

Folha – Tem algum projeto para as praças? Estão sucateadas...

Adriano – Próximo à eleição (suplementar, quando foi eleito) foi destinado R$ 1,7 milhão para reformas de praça. E o dinheiro foi liquidado, foi gasto. Foi desviado para algum lugar. Aonde eu não sei. 

Folha – E a viagem para a China, vai trazer resultados concretos para a cidade?

Adriano – Sempre gosto de destacar que paguei essa viagem com o meu dinheiro, não da Prefeitura. Firmamos uma parceria de turismo com a China. O turismo é o primeiro passo. Os chineses gostam de viajar em grupos. Eles (estão criando um roteiro em que) vão passar por Foz de Iguaçu, Manaus, Bahia e Cabo Frio. Temos que preparar a cidade para recebê-los porque o chinês não bebe água gelada, não fica na praia pegando sol. O chinês fotografa, compra souvenir. Ele adora fazer risso. Adora visitar pontos turísticos. Também visitamos empresas de energia limpa e de prospecção de petróleo, que fabrica tubulações. Fui para lá vender nossa logística. Nós temos chegada por terra, pelo ar (aeroporto internacional) e mar (porto de Arraial do Cabo). Você só compra uma coisa que você vê. Fui lá e mostrei um vídeo institucional, senti orgulho em ser cabofriense e brasileiro. Foi o meu melhor momento como ser humano. Quando nós apresentamos (o vídeo), num anfiteatro imenso, com diversas delegações, e todas eles baterem palmas, e viraram pra mim dizendo 'congratulations', 'congratulations' (parabéns em inglês), aí eu comecei a me fortalecer cada vez mais. E ainda estamos terminando o ano com o índice do IBGE informando sobre um aumento na geração de empregos formais em Cabo Frio. Foi uma ótima notícia.

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