Era uma vez uma capelinha: Um passeio pelas heranças, escolhas e percursos da igrejinha de Nossa Senhora da Guia

Em artigo, arquiteto Ivo Barreto fala um pouco da história de um dos monumentos-símbolo da cidade

Ivo Barreto I Foto: acervo Iphan/arquivo Noronha Santos
Publicado em 27/01/2019 às 08:22

Desde que iniciamos as pesquisas documentais pra elaboração do projeto de intervenção na simpática capelinha oitocentista de Nossa Senhora da Guia, em Cabo Frio, à parte de trilhas seguras para o tratamento de um conjunto de trincas mapeadas (tema instigante, mas que por economia de linhas me atenho a dizer que teve ótimo encaminhamento), penso que algumas outras descobertas sejam bem interessantes e podem nos servir de substância para matutar questões do universo do exercício do projeto de arquitetura e também para colocar um tempero na panela das condutas que alimentam a atuação no campo da preservação dos bens culturais. E se uma imagem vale mais que mil palavras (e acreditem, vale mesmo), penso que as fotos que
abrem este texto já me facilitem o início desta prosa: pois é, amigo, a antiga capelinha nem sempre foi o que conhecemos por ela hoje!

Diferente da atual, até final dos anos 50 a carinha era aquela ali, onde no lugar do telhado em tacaniça, em três águas, no alpendre – esta espécie de varanda espraiada à frente da fachada –, a Capela da Guia possuía outra volumetria, composta por frontão triangular frontal, com detalhes de frisos
e brasão sobre portada central, formando um telhado em campana no alpendre, coberto em apenas duas águas, delicadamente arrematadas por  beiraseveira na laterais, sobre as paredes que fechavam os vãos hoje existente entre as colunas de gosto toscano. Ou seja, o que hoje é um espaço aberto, em três águas e telha vã, era um em salão fechado por fachadas ornamentadas externamente e internamente tratado com forro em saia e blusa de madeira e bancos fixos para o público, conformando uma morfologia assemelhada a uma estrutura composta por nave (onde fica o público) e capela-mor (local dos santos e do sacerdote). Mas afinal, como foi que se deu esta mudança tão radical? Uma luz ao momento e ao contexto em que tudo isto
aconteceu nos diz muito sobre o caso.

Iniciado formalmente como política de estado apenas em 1937, quando da criação de um órgão dedicado ao tema, o trabalho de preservação do Patrimônio Nacional ainda afinava o tom do piano que pretendia carregar. Cristiane Souza Gonçalves, autora do livro “Restauração arquitetônica: a experiência do SPHAN em São Paulo, 1937-1975” (Ed. Annablume; Fapesp, 2007) nos dá os elementos centrais pra entender esta trama. A autora aponta que ao mesmo tempo em que a carência de informações sistematizadas sobre este campo de atuação imprime a necessidade de difundir entre as equipes em trabalho pelo país, por meio de artigos escritos pelo próprio corpo técnico do “Patrimônio”, o conhecimento acumulado nas pesquisas e ações de preservação em curso, também havia, por parte da conduta das abordagens nas obras feitas por estes mesmos técnicos, uma obsessiva busca pela “originalidade” dos bens culturais (termo que se liga à ideia de “autêntico”, hoje ainda sustentada por muitos a ferro e fogo, mas já objeto da merecida crítica).

Sabendo disto, nossa história começa a fazer sentido, quando o arquiteto Luis Saia, técnico da regional do Serviço do Patrimônio em São Paulo, e reconhecidamente a autoridade do período sobre o assunto das casas alpendradas, tem publicado na Revista do Patrimônio de 1939, o clássico artigo
“O Alpendre nas Capelas Brasileiras”. Neste brilhante texto, Saia, em um esforço de síntese necessário, estabelece uma espécie de categorização tipológica por região do país para este tipo de capela, baseada nas pesquisas e observações já realizadas até aquele momento. Dentre outras coisas, afirma sobre os alpendres que “quanto ao tipo de cobertura: do estado do Rio para o Norte surge sistematicamente o telhado em três águas”. Ora, se
a força da razão expressa na da pesquisa de um nome forte como Saia mostrava este caminho como a regra sistêmica e a busca da originalidade
pedia reconhecer os elementos estranhos à ela, o caminho para implementar o telhado em tacaniça atual, em três águas, estava aberto. Na primeira obra mais ampla de restauração da capela, em 1958, se implementa, então, esta solução, às custas, necessariamente, da irreversível demolição dos elementos inadmissíveis a esta feição original, dando novos rumos (ou retomando antigos) para a morfologia da edificação.

Sem a menor pretensão de julgar o certo ou errado; afinal cada contexto e tempo monta suas respostas sobre o que é o certo a fazer, e isso é o que temos em mãos, pura e simplesmente; podemos, ainda assim, refletir sobre certas questões que tocam o contemporâneo. Primeiramente, impossível
não notar o grau de subjetividade criativa imposta pela escolha, na medida em que não havia nenhuma documentação sobre a capela que definisse o desenho deste telhado adicionado em nome da originalidade tipológica. Mesmo aos mais puristas, é imperativo reconhecer a presença do ato criativo inerente aos projetos de restauração, de forma que os belíssimos encaixes de madeira e a admirável robustez das peças que formam a elegante cobertura do alpendre que temos ali, foram uma deliberada criação dos técnicos do período, embora baseados, certamente, em tipologias assemelhadas. Além disto, se escolha de demolir o frontão e a beira-seveira então existentes no beiral sobre os pilares do alpendre está
permeada pelo ímpeto da busca pelo que há de mais autêntico, do que seria o mais arquitetonicamente verdadeiro a respeito daquela capela, não podemos deixar de pontuar que embora naquele momento a conduta pudesse encontrar contexto que a legitimasse como melhor escolha, hoje em
dia já não se pode ignorar, passada tanta água debaixo desta ponte dos conceitos, a matéria existente figura entre o que de mais verdadeiro tem em mãos o arquiteto, quando se aborda uma pré-existência no exercício de projeto, esteja ela montada nas características de exceção ou alinhadas às
regras estabelecidas a cada tipologia.

No conforto e segurança do distanciamento do tempo, que permite dar luz a estas reflexões, nos divertindo mais o caso e digamos, “conjugando” a capela no futuro do pretérito, seria possível até mesmo pensar em outra solução hipotética de projeto que poderia ter sido adotada, tivéssemos
já estas reflexões consolidadas, na medida em que a tradição portuguesa nos oferece exemplos, embora mais raros, de capelas mais trabalhadas, com cimalhas e frontões no alpendre, a exemplo da linda Capela de N. Sra da Paz de Constantina (Leiria), a Ermida do Rei Santo (em Nave Fria) ou
mesmo a Ermida da Gralheira, todas em Portugal, esta última até mesmo croquisada por Luis Saia no mesmo artigo citado antes.Histórias que me levam a concordar com a filósofa e poeta Viviane Mosé, que tendo por apoio as bases da filosofia nietzscheana (tão necessária, aliás, para as angústias
deste mundo contemporâneo), quando nos coloca que a “verdade racional” e a “arte criativa”, ambas, sem distinção, são frutos da criação humana. A única ressalva é de que a Verdade insiste em esconder este seu nascimento impuro e mundano. Neste sentido, se a busca por critérios ao se projetar
em uma edificação como esta é, e será por muito tempo, uma busca necessária aos arquitetos e toda feita de técnicos que se disponham a encarar o desafio, a narrativa da “verdade da obra” a ser buscada na intervenção deve estar aberta a dialogar com as contradições humanas inerentes ao
seu processo histórico, entendendo, como o próprio Nietzsche reforça, que a única verdade humana possível de se admitir não é a identidade, mas sim a mudança, a eterna transformação humana. E, convenhamos, amigos, não há beleza maior que esta não é mesmo?

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