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ESPECIAL

As rochas falam: a natureza viva das pedras do sistema lagunar de Araruama

Livro 'Cabo Frio Revisitado', da Sophia Editora, mostra que a região abriga algumas das formações geológicas mais antigas do planeta

01 janeiro 2021 - 17h20Por Rodrigo Branco

Pouca gente sabe, mas está diante de uma das formações geológicas mais antigas do planeta, enquanto, por exemplo, inocentemente brinca de atirar pedrinhas na Lagoa de Araruama. Mais do que os círculos concêntricos formados na água, por causa dos arremessos dos pequenos fragmentos rochosos, o cenário registra de forma natural as mudanças ocorridas no sistema lagunar da região, ao longo de bilhões de anos. 

Em um dos capítulos do recém-lançado livro “Cabo Frio Revisitado – a memória regional pelas trilhas do contemporâneo” (vários autores, org. Ivo Barreto, 432 págs.), à venda no site da Sophia Editora, os pesquisadores Kátia Leite Mansur, Daniel Souza dos Santos e José Carlos Sicoli Seoane mostram que nem só de manuscritos e documentos é feita a história de um lugar. Pelo contrário, as rochas ‘contam’ muito sobre a trajetória daquele ambiente natural. 

De acordo com Kátia, o capítulo “A memória da Terra impressa na Geodiversidade presente na área do Sistema Lagunar de Araruama: a história antes da história” foi escrito a seis mãos, porém também conta com as referências de pesquisas e trabalhos anteriores, de outros estudiosos. O trio de autores consolidou as informações e incorporou o próprio conhecimento, com a preocupação de adequar a linguagem para um público maior que o do meio acadêmico.

– O que nós publicamos nesse capítulo é fruto de pesquisas de muito tempo, e também de trabalhos de outros autores, pois se trata de conhecimento que vem sendo acumulado há muito tempo na região. A geologia é uma ciência incrível, mas ela tem uma quantidade de termos técnicos extremamente grande e de pouco conhecimento da pessoa comum. Nosso cuidado foi relatar o atual conhecimento da evolução dessa área para o cidadão comum – descreve a geóloga.

Com didatismo, o texto relata os eventos naturais que imprimiram as características naturais da região, como a junção e separação dos continentes, há centenas de milhões de anos. As especificidades de cada local também são abordadas na obra. As rochas do Canal do Itajuru, que ficam sob o Forte São Mateus, da Boca da Barra e da Ilha do Japonês, por exemplo, datam de dois bilhões de anos atrás. 

Por sua vez, são encontradas formações rochosas, na região da Sapiatiba, próxima a Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia, com cerca de 500 milhões de anos. Ao redor da Lagoa de Araruama, podem ser encontrados ecossistemas mais ‘jovens’, com cerca de 130 milhões de anos. Mas não é apenas pela antiguidade que impressiona o conjunto mostrado no artigo. A raridade de algumas das formações rochosas também tem destaque no texto.

Na região da Massambaba, por exemplo, são encontrados os estromatólitos, que são rochas construídas pelo metabolismo dos micro-organismos existentes em diversos locais como nas lagoas Vermelha, da Pitanguinha, da Pernambuca e no Brejo do Espinho. A incidência desse tipo de material é restrita a apenas dois locais do Brasil, ambas no estado do Rio: próximo à foz do Rio Paraíba do Sul e na Região dos Lagos.

– É vida construindo rocha. Além desse fato inusitado, as formas mais antigas criadas pelas ações de organismos bioconstruídos, que mostram a existência de vida na Terra são de estromatólitos, só que são de estromatólitos de 3,5 a 3,8 bilhões de anos, enquanto os nossos são recentes, estão se formando hoje na Lagoa Vermelha, principalmente, na Pernambuca, na Pitanguinha, nos calcários do brejo do espinho. Isso mostra como essa região é importante para entender os primeiros ambientes formadores, que deixaram vestígio de vida na Terra e isso é fundamental – explicou Kátia Mansur, que conclui.

– São ambientes únicos, muito especiais. E que contam boa parte da história da Terra. São dois bilhões de anos de história. A gente fala das dunas, como se formam, a importância delas, sempre tentando mostrar o valor da geodiversidade enquanto substrato dos ecossistemas, e o quanto essa história geológica dessa região é importante para contar a evolução de quase metade da história da Terra, uma vez que ela tem 4,5 bilhões de anos e a gente tem ali no entorno 2 bilhões. É muito tempo de história geológica contada. A ideia era passar isso de uma maneira interessante e com uma linguagem mais adaptada, possível de ser entendida por qualquer pessoa – finaliza. 

Um dos colegas de Mansur na empreitada, José Carlos Sicoli Seoane destacou que o livro aumentará o alcance do conhecimento que antes ficava restrito. Com isso, o pesquisador espera cativar a comunidade local, a ponto de estimular a sua preservação para destinação turística.

– Essa região tem muitas evidências de quando a América do Sul e a África estavam coladas. Também muito nos interessam eventos bem mais recentes, como subidas e descidas do nível do mar, por exemplo. E mais recentemente ainda, de como a humanidade age e reage à natureza ao seu redor. Quilombos, indígenas, nativos, pescadores artesanais. Conhecimento popular que também precisa ser incorporado às Ciências mais formais. Tudo isso faz a natureza da Região dos Lagos ser tão apaixonante pra nós. E para os moradores e turistas, esperamos. Inclusive para subsistência da população local que, bem preparada, atua na recepção dos turistas e na divulgação das maravilhas. Além de se orgulhar do que tem como legado das gerações anteriores e da própria natureza – disse José Carlos.

Para o terceiro autor, Daniel Souza concorda com a necessidade de expandir o conhecimento ao grande público, para além dos círculos científicos. 

– Creio que o desafio real tenha sido justamente isso de escrever para um público maior, não composto por especialistas no assunto. Acho que por muito tempo a academia se manteve fechada e, atualmente, estamos passando por um momento intenso de abertura e de diálogo com as pessoas. É um desafio muito urgente, na minha opinião, já que o objetivo da universidade, no fim das contas, é melhorar a vida das pessoas. O conhecimento precisa ser democratizado e o saber popular precisa também entrar na academia, então acho que esse momento que estamos vivendo é de extrema importância. O desafio de escrever para um público maior é, com certeza, um desafio que traz muita motivação – garante.

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