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Texto sem contexto é pretexto

27 agosto 2026 - 17h29

Isolar uma frase ou uma palavra na sua origem permite distorcer seu sentido real, criando falsas ideias, manipulações ou erros graves de interpretação, especialmente em estudos bíblicos, jurídicos e filosóficos. Como as letras são frias e os números insensíveis, expressam exatamente o que dizem, sem possibilidade de manifestação de sentimentos. Para nos apropriarmos do objetivo de uma informação é necessário vermos o contexto, cuja finalidade é viabilizar o entendimento e a compreensão a respeito de um determinado tema e explicá-lo.

Cada texto representa uma linguagem funcional que desempenha um papel em um determinado contexto. O contexto vai além do que está escrito, e inclui o não verbal, o cenário total no qual o texto se desenvolve e onde deve ser interpretado. Paulo Freire (1921–1997), educador e filósofo, foi muito claro ao dizer: “Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”. Paulo Freire ensinou que a leitura da vida vem antes da leitura das letras.

A Bíblia, o livro mais lido no mundo, não teria sentido sem o contexto. Um dos seus principais personagens, Jesus, utilizou este processo para alcançar seus seguidores. Em muitas situações ele aplicou este artifício no cumprimento da lei a que estava sujeito como cidadão. Isto ficou muito nítido no episódio em que uma mulher estava para ser apedrejada, em cumprimento ao texto da lei romana, tipificando um crime de adultério. Ao ser confrontado com os que estavam prontos para aplicar a pena, simplesmente disse: “Aquele que não tiver cometido pecado que atire a primeira pedra”. Não descumpriu a letra legal, mas aplicou o contexto que a situação exigia. Em outra ocasião, disse: “É mais fácil entrar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Para entender o que ele disse é preciso buscar o contexto, voltando ao passado, e saber que “agulha” era uma passagem estreita.

Percebemos que o texto nem sempre expressa exatamente o que está escrito, uma vez que as circunstâncias variam de pessoa para pessoa, lugar para lugar. Como professor, deparei com muitas situações em que tive que reavaliar uma correção de questão de prova, em razão de o aluno apresentar argumentação para uma determinada resposta que as letras não conseguiram expressar.

Há uma distância abissal entre a teoria e a prática. Quando o legislador elabora uma determinada lei, faz sob a ótica de que todos são iguais, porque assim diz a letra jurídica. Mas as pessoas são diferentes, as organizações são diferentes, os tempos são diferentes. A própria legislação, apesar da frieza textual, admite a existência do contexto ao prever “culpa” e “dolo” para a tipificação de um mesmo crime.

No ambiente político nada justifica o comportamento de gestores em se afastarem do texto para buscarem o contexto, em acolhimento aos seus interesses pessoais.

Ao tomar posse, o agente público jura cumprir o estatuto jurídico de administrar em favor de todos, zelar pelo bem-estar da população, ser comedido, transparente, justo e igualitário, mas na prática, cria seu próprio contexto, sob pretextos de diversas origens. Nem o meio corporativo escapa dessa lógica, basta observar algumas divulgações exibidas diariamente pelos veículos de comunicação, onde o texto não condiz com a prática, virando contexto.
Na sociedade, cada indivíduo recebe um script para interpretar: nascer, crescer e morrer. Entretanto, o contexto da vida, muitas vezes, desvirtua o roteiro direcionando-o para caminhos difusos, criando pretextos, o que nos leva a uma frase do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925–2017): “A única coisa de que podemos ter certeza é a incerteza”.