Em 1979, a Receita Federal do Brasil encomendou uma campanha publicitária à agência DPZ com a missão de incentivar a arrecadação e educar os contribuintes sobre a importância de fazer a declaração e efetuar o pagamento do imposto de renda. O publicitário Neil Ferreira, da agência, desenvolveu um símbolo que pudesse representar a força e a imparcialidade da Receita Federal. O conceito foi aprovado pelo então secretário da Receita, Francisco Dornelles, e a campanha foi ao ar em 1980, gerando grande impacto na comunicação oficial do órgão. No primeiro comercial, um leão aparecia sendo entrevistado por um repórter de televisão. A escolha do leão não foi aleatória; o objetivo era apresentar características do felino alinhadas com o funcionamento da Receita e da Justiça Federal, transmitindo quatro mensagens principais: força e autoridade, pois o leão é considerado o rei dos animais e impõe respeito; justiça, simbolizando uma fiscalização firme, mas sem excessos; lealdade, atuando de forma previsível, sem mudanças inesperadas; e rigor controlado, sendo manso, mas não ingênuo.
Temos que reconhecer que a escolha do leão como símbolo da Receita Federal foi oportuna, não pelos argumentos apresentados, mas sim pela comoção que a imagem do animal causa nos contribuintes. O leão é um predador, vive até 20 anos, pode comer cerca de 30 quilos de carne por dia, pode correr a uma velocidade de 80 km, e é o segundo maior felino do mundo. Seu rugido pode alcançar uma distância de até 8 km. Por sua força e imponência, é considerado o rei dos animais, sendo utilizado como metáfora para muitas situações. Uma das suas representações de maior importância foi sua utilização como símbolo bíblico e cultural da realeza e linhagem de Jesus Cristo. Originário do Antigo Testamento, a figura do leão passou a ser associada à tribo israelita de Judá, daí o termo ser aplicado como referência a Jesus, designando-o como “Leão da Tribo de Judá”. Na tradição bíblica, o leão é símbolo de força, vigilância, realeza, coragem e nobreza.
Mas existe outro lado, não tão nobre ou recomendado. Leões não perdem tempo com opiniões de ovelhas; leões agem em silêncio, mas, quando necessário, rugem; são predadores natos, abatem presas indefesas para se alimentarem. O apóstolo bíblico Simão Pedro, em sua primeira carta dirigida aos estrangeiros dispersos pelas cinco províncias romanas na Ásia Menor, fez uso de uma metáfora, utilizando o leão, para alertar os cristãos sobre perigos que estavam correndo, dizendo no capítulo 5, verso 8: “Estejam alertas e vigiem. O diabo, o adversário de vocês, ronda como um leão, rugindo e procurando a quem devorar. Resistam-lhe permanecendo firmes na fé, sabendo que os irmãos que você têm em todo o mundo estão passando pelos mesmos sofrimentos”.
Na maioria dos países do mundo, o “leão da Receita” é visto como uma constante ameaça aos sonegadores de tributos. Nos Estados Unidos, o órgão equivalente à nossa Receita Federal é implacável, recebendo o nome de IRS (Internal Revenue Service), ligada ao Departamento do Tesouro. Em 1931, foi esse departamento que conseguiu a condenação do gangster Al Capone, prendendo-o por sonegação fiscal.
Como seu exemplar animal, o leão da Receita impõe medo aos contribuintes, sendo implacável e insaciável na sua fome por mais arrecadação. No Brasil, a arrecadação federal fechou o ano de 2025 com o valor recorde de R$ 2,887 trilhões, representando um aumento real de 3,75% acima da inflação, comparado com o ano de 2024.
Toda manhã na África, a gazela acorda sabendo que precisa correr mais rápido do que o leão para sobreviver. Toda manhã um leão acorda e sabe que precisa correr mais rápido do que a gazela para não morrer de fome. Não importa se você é uma gazela ou um leão, quando o sol nascer, corra!!
