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Coluna

Homofonia

18 junho 2026 - 15h07

Que a língua portuguesa é complexa, considerada uma das mais difíceis de ser aprendida, isso todo mundo sabe. Até para nós, nativos, parece complicado, principalmente quando nos deparamos com palavras de mesma pronúncia, mas grafias e significados diferentes. Quando isso acontece estamos diante de uma “homofonia”, termo de origem grega formado pelas palavras “homos”, mesmo, e “phonos”, som.

Podemos perceber isso nas palavras tacha e taxa. Tacha pode se referir à conjugação do verbo tachar, a um dispositivo de sinalização viária (olho de gato), ou a um prego pequeno, curto, de cabeça achatada e larga, frequentemente utilizado na tapeçaria, montagem de móveis e fixação de murais. Em épocas passadas as tachas eram muito usadas por sapateiros no conserto de solados de sapatos. Um fato curioso aconteceu em nossa cidade há muitas décadas. Um cidadão adquiriu uma borracharia e os negócios não iam muito bem. Teve então uma ideia: espalhou alguns pacotes de tachas pelas ruas próximas ao seu negócio, para que quando os carros passassem furassem os pneus e procurassem seus serviços. Não deu outra, seu movimento aumentou. Num outro viés, tacha também significa censurar, criticar ou atribuir uma característica negativa a alguém. 

Quando se trata do termo taxa, a situação fica séria, pois representa um tipo de tributo, cobrado geralmente pelo governo, que em contrapartida presta serviços públicos específicos ou o exercício do poder de polícia. Fora do contexto tributário, a palavra também é usada para definir percentagens financeiras de juros, câmbio ou custos adicionais, como taxa de serviço, taxa do lixo, taxa bancária, entre outras. Mas, a pergunta que não quer calar: Os impostos que pagamos já não foram criados para cobrir estes serviços? Monteiro Lobato (1882 – 1948), escritor brasileiro, no livro “Mr.Slang e o Brasil”, escreveu: “O Sistema tributário do Brasil, não contente de tomar dinheiro, também toma esforço. É pois um sistema de taxação nocivo ao país. Cobra duas vezes – uma em moda, outra em energia humana”. 

Na política vemos aparecer a palavra homófona “tacha” com muita frequência. Quando surge um escândalo, os adversários logo apontam que aquilo é uma tacha na imagem do político; nos debates, e agora com a aproximação das eleições, vamos vê-la aparecer com regularidade. Podem surgir juntas, como na divulgação da taxa de desemprego no Brasil: o IBGE divulgou que a taxa de desemprego caiu para 5,8% no último trimestre, isto é um dado político para enaltecer a gestão econômica. Porém, se for tornado público que o governo maquiou os números de desempregados, logo a oposição vai atacar dizendo que isso é uma tacha na credibilidade dos gestores. Outra situação muito comum vista nos últimos tempos foi a avaliação da cobrança da taxa do lixo, por parte da população de inúmero municípios brasileiros. A Prefeitura criou a taxa do lixo, prevista em lei, para cobrir os custos do serviço, porém se constatou que o serviço não vinha sendo prestado com eficiência, este fato recaiu sobre a imagem do prefeito como uma tacha. Joaquim Nabuco (1849 – 1910), jurista brasileiro, há dezenas de anos já dizia: “O país chegou ao extremo da sua força taxativa; os impostos não podem ser aumentados”. Se vivesse ainda hoje, o que ele diria do atual quadro tributário brasileiro?

Taxa é sempre algo mensurável, de dinheiro ou índices. Tacha é a mancha, o conceito, que fica quando tem algo errado. Os eleitores “tacham” os políticos de corruptos, que em contrapartida “taxam” os produtos consumidos pelos eleitores.