Produzido pelos Studios Disney em 1937, o filme de animação “Branca de Neve e os Sete anões”, apresenta uma cena icônica mostrando a Rainha Má perguntando ao espelho: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu”? Esta rotina se estendia diariamente, com a resposta de que ela seria a mais bela, até que um belo dia o espelho respondeu: “Embora a rainha seja bela, Branca de Neve é a mais linda de todas”.
Na mitologia grega o mito de Narciso narra a história de um jovem de beleza inigualável, filho de um deus do rio, Cefiso, cujo principal traço de caráter era desprezar todos que o amavam. Após ser amaldiçoado ao rejeitar o amor da ninfa Eco, Narciso apaixonou-se pelo próprio reflexo ao beber água numa fonte, acabando por morrer afogado ao tentar possuir sua própria imagem.
Este mito foi estudado por Freud na psicologia, transformando-se em um símbolo da vaidade excessiva e da incapacidade de amar o outro, originando o termo “narcisismo”.
Existe uma dualidade entre a imagem e a essência. O cantor brasileiro Caetano Veloso, em 1978, compôs a música Sampa, que apresenta em um dos seus versos: “Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto/Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto/É que Narciso acha feio o que não é espelho/E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho/Nada do que não era antes quando não somos mutantes”.
Parodiando a criação de Disney, em 1982, os compositores da Escola de Samba União da Ilha do Governador, Didi e Mestrinho, escreveram o famoso samba-enredo “É hoje”, imortalizando o refrão: “Diga espelho meu/Se há na avenida/ Alguém mais feliz do que eu”. Se os espelhos falassem, muitos ficariam surpresos com as respostas, uns felizes, outros decepcionados. Uma imagem refletida em um espelho não engana, o que se vê é o que realmente é. Entretanto, muitas pessoas, mesmo vendo o que é verdadeiro, tomados pela vaidade e orgulho, veem o que sua mente deseja que seja visto. Seria curioso saber o que um político vê quando contempla sua imagem em um espelho? Ou um criminoso assassino? Ou um empresário fraudador?” Albert Camus (1913 – 1960), filósofo e escritor argelino, é autor de uma frase esclarecedora, ao dizer: “O homem é o único ser que se recusa a ser o que é”.
Algumas instituições corporativas, numa ação de endomarketing e cultura organizacional, posicionam um grande espelho, geralmente na portaria ou refeitório, com os seguintes dizeres: “o espelho reflete você. Você reflete a empresa”.
O objetivo é promover o autoconhecimento, responsabilidade individual e sentimento de dono.
Uma imagem digitalizada ou pintada pode ser manipulada, as ferramentas de Photoshop fazem o que se deseja com uma fotografia, basta observar as fotos nos perfis de whatsapp ou instagram, que apresentam fotos rejuvenescidas dos seus titulares. Fato incontestável é que o espelho não mente, apesar de apresentar uma imagem invertida.
Essa percepção obtida na contemplação de um espelho em que uma pessoa tem uma falsa interpretação do que vê, está relacionada a um fenômeno denominado “Efeito Mandela”, quando se acredita em algo irreal motivado por uma falsa memória coletiva.
Entretanto, faz bem ao ego e a autoestima, ver-se bem, achar-se bonito ou bonita, ao mirar sua imagem refletida. Certo estava Cicero (106 a.C – 43 a.C.), orador romano, quando disse: “O rosto é o espelho da alma”.

