Segundo registro bíblico no livro de Levítico, Antigo Testamento, havia uma cerimônia em que o Sumo Sacerdote de Israel transferia todos os pecados do povo para um bode, que era expulso e abandonado no deserto, purificando a comunidade. Este ritual é conhecido como Dia da Expiação ou Dia do Perdão (Yom Kipur), comemorado pelos judeus do por do sol do dia 20 ao anoitecer do dia 21 de setembro. Está prática originou o termo “bode expiatório” que se traduz como transferir para uma pessoa ou grupo de pessoas, erros, falhas ou problemas de outros, servindo para desviar a atenção dos verdadeiros culpados. Na atualidade, refere-se a criar um pretexto para punir ou apontar o dedo a alguém inocente. No ambiente de trabalho, político ou até mesmo familiar, ele é usado para proteger a imagem de quem realmente cometeu o erro.
O pensador e filósofo francês René Girard (1923 – 2015), desenvolveu a famosa Teoria do Bode Expiatório (1982), explicando que minorias ou indivíduos que fogem dos padrões, são frequentemente vitimados para aliviar tensões ou conflitos em uma sociedade. Essa dinâmica serve para desviar a responsabilidade dos verdadeiros culpados e restaurar a falsa ordem social.
Nas famílias, o membro que é colocado nessa posição sofre severas consequências de inadequação e baixa estima. Na psicologia, o fenômeno está ligado ao mecanismo de defesa como uma projeção. Os indivíduos ou a sociedade depositam seus próprios defeitos, medos ou fracassos em um alvo mais vulnerável ou que se destoa dos padrões do grupo.
É comum tomarmos conhecimento de pessoas inocentes que acabaram sendo acusadas, e até mesmo punidas, por algo que não fizeram ou não tiveram responsabilidades diretas. Antes que a inocência fosse provada, foram repudiadas, sofreram com zombarias e insultos, sem mesmo serem reveladas as verdades por detrás dos fatos. Em geral são utilizadas como “bode expiatório”.
Um dos casos históricos mais conhecidos foi o de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. A verdadeira liderança da Inconfidência Mineira (1789) era composta por uma elite rica e culta de Vila Rica, como desembargadores, coronéis, padres e comerciantes. Por ser militar de patente baixa, e sem grande influência política, Tiradentes acabou assumindo a responsabilidade total do plano, enquanto os demais inconfidentes conseguiram sair impunes ou com penas mais leves.
Ele foi o único a ser executado pela Coroa Portuguesa para servir como exemplo. Sua imagem só foi resgatada durante a Proclamação da República, transformando-se em herói nacional. Segundo Dunga Trismegistro, escritor e influenciador digital, “o bode expiatório muitas vezes é alguém que carrega uma carga injusta, mas mesmo assim segue em frente, mostrando a força e a coragem que só os verdadeiros heróis possuem”.
No ambiente político é onde mais encontramos bodes expiatórios.
Recentemente um blog sensacionalista publicou a notícia de que um assessor de certo membro do poder legislativo assumiu a paternidade de um filho bastardo de seu chefe, evitando com isso um escândalo que prejudicaria a carreira do nobre político. Em outro caso, o gerente de uma empresa ficou com a culpa de ilícitos administrativos perpetrados por seu patrão, sendo inclusive preso. Claro, para assumir culpabilidade de outrem, os servidores são regiamente recompensados.
No período da escravidão no Brasil havia uma prática de transferência de responsabilidade interessante, para não dizer cruel. Quando uma pessoa livre (geralmente de classe social mais alta, ou filhos de senhores) cometia um ato infracional ou erro, um escravizado – chamado de menino de pancada ou pajem de castigo – recebia a punição física em seu lugar, normalmente por açoites.
Quando a sociedade é omissa, lança sobre os inocentes a culpa das mazelas dos poderosos.

