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Coluna

Desperdício e pobreza

17 setembro 2026 - 00h26

“A fome nada tem a ver com a escassez, tem a ver com a riqueza”. Esta citação parece um paradoxo, entretanto, é comum atribuir essa situação de miséria que campeia em algumas regiões, à baixa remuneração do trabalhador no contexto da má distribuição de rendas. Nesse viés, espanta-nos a constatação de que o Brasil é campeão mundial em desperdício de alimentos, e que o nosso lixo é um dos mais “ricos” do mundo. Antoine Lavoisier (1743–1794), químico francês, autor da famosa frase: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, ficaria escandalizado com o volume de perdas observadas em nosso país, o que certamente o levaria a reformular sua citação.

Um estudo da USP, tempos passados, dentro do programa da Administração do Varejo (Provar), apresentado quando da realização da Expo Abras, realizada na cidade do Rio de Janeiro, constatou que os estabelecimentos varejistas jogaram no lixo o equivalente a R$ 4 bilhões, boa parte referente a produtos estragados, danificados, ou com prazo de validade vencido. Seria o caso de perguntar: por que não doar em lugar de deixar estragar ou vencer a validade? A resposta é simples: há impedimento legal em fazer doação de produtos com prazo de validade vencido, mesmo constatando seu bom estado. O jeito é inutilizar e jogar fora mesmo. Entretanto, o maior desperdício de alimentos começa dentro das nossas próprias casas. Quantas vezes colocamos no prato mais comida do que podemos comer? Quantas vezes compramos mais do que precisamos? Para onde vai esse excesso? A resposta é fácil: para o lixo!  

Quando falamos de desperdício, o leque é grande. Vai do tempo cronológico aos recursos financeiros. Um dos mais graves problemas inseridos no contexto desperdício é o da água, bem “livre”, fornecido pela natureza e utilizado como se nunca fosse acabar. Dados da Sabesp, constantes da Agenda 21 (instrumento de planejamento participativo voltado para o desenvolvimento sustentável do país), mostram que são desperdiçados anualmente 2,08 bilhões de metros cúbicos de água, o que corresponde a 45% da água captada no Estado de São Paulo. Observa-se que se chega ao cúmulo de “varrer” pátios e calçadas com jatos de água. Para se ter uma ideia, um pingo constante de água de uma torneira, vai representar por dia 20 litros desperdiçados.

E as coisas públicas, de uso comum? Representa quase uma cultura nacional tratar os recursos públicos com descaso e falta de cuidado, como se nada custassem. Patrimônios depredados, obras inacabadas e abandonadas, equipamentos sendo deteriorados ou inutilizados, são só alguns exemplos comuns de serem observados no dia a dia de nossas cidades.

Não podemos nos esquecer dos desperdícios que não podem ser dimensionados monetariamente, como o tempo de espera em filas, tempo de tramitação de projetos legislativos, judiciais e administrativos, tempos nos engarrafamentos nas vias de cidades e estradas mal planejadas, etc. Perdas irrecuperáveis.
No final, alguém tem que pagar por tudo isso. No caso dos alimentos perdidos nos comércios, o valor é incluído na planilha de custos, indo para a conta dos consumidores; na área pública, a compensação cai na conta dos contribuintes via aumento da carga tributária.

O assunto é tão amplo que podemos incluir, sem ser menos importante, o desperdício de talentos. Fala-se que o brasileiro é o mais criativo dentre os povos do mundo, mas quantas vezes tem sido preterido na apresentação de ideias e projetos? Roberto Campos (1917–2001), economista brasileiro, disse certa vez: “Continuamos longe demais da riqueza atingível e perto demais da pobreza corrigível”.