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HISTÓRIA

Do Campo dos Cavalos ao segundo maior polo comercial, Jardim Esperança completa 54 anos

Criado no dia 17 de julho de 1972 a partir da remoção de moradores da Praia do Forte, bairro ganha acervo histórico no Centro de Memória Olhar da Perifa

24 julho 2026 - 09h37Por Cristiane Zotich

O Jardim Esperança, um dos bairros mais povoados e economicamente dinâmicos de Cabo Frio, acaba de completar 54 anos de fundação. Criado em 17 de julho de 1972 pelo então prefeito Otime Cardoso dos Santos, o local nasceu através de um projeto municipal que tinha como objetivo realocar uma comunidade que estava se instalando no entorno da Praia do Forte. Hoje, toda essa história está sendo documentada e catalogada no acervo do Centro de Memória Olhar da Perifa, que funciona no Ciep 458 Hermes Barcelos, situado na Estrada Velha de Búzios, nº 01, no Jardim Esperança.

Responsável pela supervisão técnica do Centro de Memória comunitário, Thammy Carvalho contou à Folha que antes de se tornar Jardim Esperança, toda aquela área era conhecida como Campo dos Cavalos. O antigo nome popular fazia referência à grande quantidade de cavalos que pastavam naquelas terras, pertencentes a três grandes fazendas da região: Monte Alegre, Assunção e Itapeba.

O bairro, que nasceu estritamente residencial, passou por uma grande transformação ao longo das últimas cinco décadas. Levantamento realizado pelo Plano Municipal de Mobilidade Urbana de Cabo Frio de 2019 revela que o Jardim Esperança se consolidou como uma área de alta densidade demográfica - sendo a segunda região mais populosa do município, com cerca de 3.125 habitantes por quilômetro quadrado (IBGE, 2017) - e como o segundo maior polo comercial da cidade. 

O documento também aponta que o bairro concentra postos de combustível, instituições de ensino, hospitais e postos públicos, atendendo aos moradores de todo o entorno, além de ter se tornado um dos maiores colégios eleitorais do município, responsável por eleger vereadores locais. Revela ainda que o Jardim Esperança deixou de ser apenas um bairro de Cabo Frio e se tornou um grande centro - chamado de “o Grande Jardim” - reunindo outras 17 localidades: Boca do Mato, Caminho de Búzios, Colinas do Peró, Monte Alegre I, Monte Alegre II, Morro do Limão, Parque Eldorado I, Parque Eldorado II, Parque Eldorado III, Pedacinho do Céu, Porto do Carro, Reserva do Peró, São Jacinto, Serra Pelada, Tangará, Valão e Vila do Ar.

Paralelamente ao desenvolvimento econômico, o Jardim Esperança construiu uma rica identidade cultural. Segundo Thammy, nas décadas de 1980 e 1990 o bairro se consolidou como um grande berço cultural em Cabo Frio, impulsionado por festas, casas noturnas e espaços dedicados a ritmos como forró, pagode e música de discoteca.

Para preservar toda essa história, Thammy Carvalho e Pierre de Cristo já conseguiram catalogar vários documentos e fotos do bairro. Muitos desses materiais foram doados por moradores. Entre as relíquias preservadas estão algumas edições do Jornal do Jardim (foto), com data de 1997, que reunia notícias, coluna social, classificados e anúncios do comércio de serviços do Jardim Esperança e de bairros vizinhos. O acervo também conta com registros sobre a trajetória do fundador do bairro, Otime Cardoso dos Santos.

– Além do jornal e da história que envolve a remoção feita pelo então prefeito Otime no início da década de 70, temos mapas da época que ainda o bairro era chamado de Campos dos Cavalos, e a frente da lagoa era bairro Fonseca, fundado por Antônio Luiz da Fonseca e seu sobrinho Américo Gomes da Fonseca - revelou.

Pierre lembra que o trabalho de expansão do Centro de Memória é contínuo e se fundamenta na colaboração ativa dos próprios moradores da localidade.

– O acervo continua sendo montado. Continuamos fazendo a captação de materiais com moradores antigos do Jardim Esperança, como fotografias, recortes de jornais, ou qualquer objeto que traga um pouco da história do bairro. A ideia é criar um acervo físico que conte realmente a construção do bairro, onde os moradores possam se ver e se identificar com a própria história nos moldes que hoje é como exemplo o Museu da Maré no Rio de Janeiro - informou.

Apesar da importância do trabalho, o pesquisador ressalta que os desafios do processo de consolidação de um acervo histórico comunitário são grandes.

– O acervo foi criado a partir de muitos anos de pesquisas sobre o território. Estávamos sonhando em um dia colocar tudo isso à disposição da população do Jardim Esperança, para conhecerem de fato a sua própria história, a história do bairro. A construção desse acervo demorou bastante tempo, pois envolve muitas questões, pesquisas, acesso a documentação, confiança das pessoas para doarem arquivos pessoais, então é um processo demorado, pois em muitos casos envolve objetos que produzem sentimentos familiares. Mas a construção desse acervo é muito importante. É a história da construção de suas identidades, dos primórdios dos primeiros habitantes até a contemporaneidade. Quando você conhece a sua história é mais fácil criar uma identidade própria. Então essa é a nossa contribuição para a população do Grande Jardim Esperança, deixar um legado de identidade histórica sobre suas ancestralidades, e com isso permitir que eles tenham referências do lugar onde vivem - explicou.