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Forte São Matheus

Cartões postais de Cabo Frio são passeio pela história da cidade

No Forte São Mateus e no Charitas, foi contado boa parte do que aconteceu nos seus 403 anos 

13 novembro 2018 - 11h43Por Texto e foto: Alexandre Filho
Cartões postais de Cabo Frio são passeio pela história da cidade

Caminhando pela orla da Praia do Forte é impossível não notá-lo. No canto de um dos principais cartões postais da cidade, cravado no alto de uma rocha, o Forte São Mateus se mostra imponente, à vista de quase todos na cidade. Dizem que foi assim, ao fazer uma despretensiosa caminhada
pela famosa praia, que o poeta Victorino Carriço compôs o que viria a ser o hino de Cabo Frio. “Tuas praias, teu Forte, olho ao longe e vejo o mar
bravio”, diz um trecho da canção.

Pois bem, nos dias de hoje, nos quais a informação se perde em meio à sua própria vastidão e na correria frenética do dia a dia, admirar apenas não
basta. É preciso ir além da simples pesquisa no Google para entender o que, de fato, prédios históricos como estes significam para uma cidade com 403 anos comemorados hoje. É preciso buscar por experiências. No canto da praia, já à beira da pedra que sustenta a fortaleza, a subida íngreme e tortuosa
se torna o último desafio até a entrada da praça de armas do forte, onde encontramos com Élbio, o guia turístico que irá nos acompanhar nessa jornada através do tempo. A vista de Cabo Frio do alto do Forte é esplendorosa e a natureza nos mostra a capacidade que essa terra tem de se reinventar
ao longo dos anos. Se nos primórdios era objeto de desejo de povos estrangeiros devido à busca predatória pelo Pau-Brasil, hoje são os mineiros,
paulistas, candangos e tantos outros que vêm à procura de descanso ou agito para aproveitar as belezas naturais, abundantes por aqui.

“O Forte São Mateus está intimamente ligado às origens de Cabo Frio”, nos explica Élbio. Isso porque sua fundação aconteceu em 1616, somente
um ano após Cabo Frio surgir como Santa Helena do Cabo Frio. 

Ao passear pela arquitetura com pouco mais de quatro séculos de história e estrutura feita de pedra, cal e óleo de baleia, de forma lúdica, é perceptível que a fortaleza ainda exerça a função para a qual foi construída: proteger a costa. A construção, que até hoje é um dos maiores símbolos da cidade, foi erguida para sacramentar a vitória dos portugueses sobre franceses e índios tamoios. 

A incursão pela casa de comando, quartel e cozinha, traz à imaginação as batalhas travadas por soldados, cabos e capitães contra franceses e holandeses, que muitas vezes ficavam presos na cela do local. 

– Seus canhões, porém, não tinham potência para abater barcos que aportavam no horizonte. Sua finalidade era apenas uma: avisar tropas ao entorno da costa – explica Élbio.

Enquanto o guia fala, vem à mente o trabalho dos soldados ao avistar uma embarcação inimiga. O aviso, que hoje pode ser feito até via Whatsapp, na época era restrito à bala de canhão, que alertava sobre invasões. Um tiro, dois tiros, três tiros. Cada código, um significado. E assim Cabo Frio se manteve protegida de ataques inimigos e dos clamorosos saques de piratas europeus ao Pau-Brasil. 

De lá para cá, com a míngua dos conflitos na costa, soldados deixaram de habitar seus cômodos e foram os enfermos que passaram a frequentar o forte no século 18. Como uma espécie de lazareto (onde se cuidava de pessoas com lepra), o local se tornou a última morada de muitos cabofrienses antes de partirem para a eternidade. Mas esse período durou pouco tempo. 

Atualmente como patrimônio histórico e cultural tombado desde meados do século 20, o passeio pelo local nos leva ao passado e nos projeta ao futuro.
Quem por aqui passa percebe que a história do forte se confunde com a trajetória da cidade. Ele nasceu junto com ela, a viu crescer e se desenvolver,
acompanhando todas as suas fases. Com certeza, se pudesse falar, a fortaleza contaria a história de Cabo Frio melhor do que qualquer livro de história
jamais contou. 

Saindo do forte, os ventos nos levam a outro local de destaque na cultura de Cabo Frio: a Casa de Cultura José de Dome, o Charitas, que em latim
significa caridade. E foi exatamente essa a finalidade da casa em boa parte de seus 178 anos, desde que a Irmandade Santa Isabel, juntamente com a
Coroa Imperial, construiu o prédio que fica cravado no coração da cidade de Cabo Frio. Quem nos recebe no local é o guia Rafael.

Ele explica que, no século 19, a cidade vivia um grande problema de abandono de crianças, fruto de relações extraconjugais. Com a fundação
da casa, os bebês, que antes eram deixados à própria sorte em qualquer lugar da rua, agora tinham um lugar para ficar.

No local, ficava instalada a Roda dos Expostos, que servia exatamente para que as mães, de forma anônima, protegidas pela escuridão da noite, subissem os degraus do Charitas e colocassem seus filhos na “roda”, a girassem e tocassem o sino. Do outro lado, a matrona da casa recebia
a criança, da qual cuidaria até completar a maioridade.

Ao andar pelos corredores, entre uma nota e outra do piano que toca ao fundo, podemos imaginar quantas brincadeiras ali aconteceram, broncas foram
dadas, lições aprendidas e, principalmente, quantos risos e lágrimas fizeram parte do desenvolvimento desses seres humanos que ali viveram.

Em 1942, a casa se torna o quartel general da 1ª Artilharia de Dorso do Exército Brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial. Depois de servir 
de casa de caridade e quartel do Exército, mesmo com sua arquitetura elegante e imponente, o Charitas foi reformado e tombado em 1989, se tornando
uma casa de cultura.

Com 88 obras do sergipano José de Dome, que dá nome ao local e que viveu boa parte de sua vida em Cabo Frio, o prédio inspira cultura e expira conhecimento.

A casa está sempre aberta para qualquer tipo de expressão artística: pintura, música, dança, poesia, literatura. Com o fim do passeio, a única certeza
que fica é a de que tudo que por ali passa, transforma e é transformado.