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Coluna

Buracos no asfalto, vidas interrompidas

26 maio 2020 - 20h19

Estimados leitoras e leitores de todas as terças, nas minhas muitas caminhadas por Cabo Frio (RJ), segundo município em extensão territorial da Região dos Lagos, porém o mais populoso e de maior PIB (Produto Interno Bruto), que é a soma de riquezas produzidas, bens e serviços, tenho observado um cenário estarrecedor. Ruas esburacadas, espaços públicos degradados, falta de transparência, enfim, uma sopa insossa e com gosto de fel.

Na noite da última terça-feira, 19 de maio, registrou-se um grave acidente envolvendo um ciclista, na Praia do Siqueira, Av. América Central, que não resistiu às graves lesões provocadas no impacto, e, segundo o Corpo de Bombeiros, morreu ainda no local. Vale destacar que, naquele trecho, a cidade não dispõe de espaços apropriados para circulação de bicicletas.

Por oportuno, cabe acrescentar que o Portal do Trânsito divulgou, em fevereiro deste ano, um dado alarmante: “mais de 1300 ciclistas morrem todo ano no Brasil”. Definitivamente não podemos desviar os olhares dessas tragédias do cotidiano.

É notório que boa parte das cidades brasileiras carecem de investimentos robustos e planejamento de seus sistemas modais, que estejam, inclusive, integrados aos meios de transporte público tradicionais. O Reino Unido anunciou, recentemente, que vai aplicar o equivalente a mais de R$ 14 bilhões, para incentivar a caminhada e o uso das populares “magrelas”. As medidas propostas pelo Governo Britânico, recentemente, focarão, em grande parte, na recuperação de vias e ampliação das redes de ciclovias e ciclofaixas, tudo para facilitar aos cidadãos o retorno ao trabalho, após superação da fase mais aguda da Pandemia da COVID-19.

Sem dúvida, além de proporcionar maior segurança aos pedestres e praticantes do ciclismo, reduz a quantidade de veículos circulando nas estradas, bem como, em tempos de coronavírus, a aglomeração nos coletivos, estações e pontos de parada, promovendo inúmeros benefícios. Com efeito, ajuda a promover hábitos mais saudáveis – significando, então, mais saúde e qualidade de vida. Vai além, atenua sensivelmente o impacto ambiental, pela diminuição da emissão de poluentes; contribui com o desenvolvimento da sociabilidade e autoestima; e, no mesmo sentido de benefícios gradativos, advém redução dos custos de manutenção com a pavimentação. E que tal aprimorar a “conexão” entre os distritos e diversas regiões, encurtando, por exemplo, distâncias / tempo de viagem de quem reside ou trabalha distante do centro da cidade, minorando desgastes e o cansaço.

E por falar em despesas com reparos, vale abrir breves parênteses para narrar uma cena no mínimo curiosa, e que chamou muita atenção: não faz muito tempo, observamos cinco ou seis veículos com pneus furados, lacerados e suspensões avariadas, perfilados no acostamento, em decorrência das crateras nas pistas de rolamento, numa das rampas da ponte sobre o Canal Palmer. Tamanho prejuízo no bolso do contribuinte e riscos de danos irreversíveis. Mais do que isso, infortúnios que podem ceifar precocemente entes queridos e amigos!
Feita a breve referência, voltemos ao tema em análise. A nossa malha viária é reconhecidamente de péssima qualidade, mesmo nos bairros mais próximos ao Centro e que ostentam os empreendimentos imobiliários e comerciais de vultoso valor agregado, possui pavimentação invariavelmente irregular. Não bastasse o padrão “queijo suíço” de qualidade, dados os numerosos buracos e incômodas ondulações, os usuários ainda são obrigados a conviver com lombadas fora dos padrões assim exigidos no art. 94 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e respectiva regulamentação preconizada na Resolução n° 600 do CONTRAN (Conselho Nacional de Trânsito).
Não se pode mais perder tempo. A impactante realidade exige uma mudança drástica, sobretudo de mentalidade, de consciência, principalmente dos mandatários políticos – com a permissão de eventual redundância.  Defender atitudes que permitam uma convivência mais harmoniosa e civilizada torna-se inadiável.

Caríssimos gestores, em respeito à dignidade da pessoa humana, dessa gente aguerrida que lhes confiou seus mandatos, convém alertar para que vós retirem as vendas dos olhos. Contemplem um horizonte de oportunidades que se faz presente a sua vanguarda. Investir em mobilidade urbana significa desafogar, também, as unidades de atendimento de emergência (UPA) e consequentemente os leitos do SUS, na rede hospitalar, um recurso tão essencial e estratégico em tempos de crise.