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Coluna

Vento favorável

04 abril 2022 - 14h53

Quando folhas caem das árvores e o amanhecer nos sorri com tapetes secos, sonoros e coloridos, compreendemos a beleza do outono. Um bailar sussurrado, repleto de poéticos sentimentos. Sim, há poesia na estação. As folhas se erguem apontando aleatoriedade. Não mais voltarão ao mesmo lugar.

Quando folhas secas se erguem do solo, em bailar involuntário, assinam a arte de subsistir. Tal confiança é reflexiva à humanidade. Um destemor admirável que nos convida a bailar junto, sonorizar, seguir o som dos ventos, tocar aéreo espaço despreocupados com o porvir. Onde pousam as folhas secas, de tons amarelados, descoloridos, do outono?

Há décadas contemplamos o mesmo espetáculo. Semelhantes folhas. Jamais as mesmas...

Como nos ensina a natureza! Quanta grandeza e humildade nos motiva a seguir, independente das propostas do tempo. Ah, o tempo! Que mentoria, que paciência, que exemplo! Admirável tempo a ressignificar nossos dias. Voz que ressona em meio ao silêncio. Seguimos fragmentados na intenção dos ventos... Deixamos nossas digitais por onde passamos. Tocamos fértil solo, mas insistimos em indagações desconstruídas. Quisera desvendar a intenção dos ventos e aliada ao tempo, acalmar a humanidade com palavras. Não as tenho por minhas. Somos guardiões de sentimentos imparáveis. Quando folhas secas decidem falar, não há quem as detenha, tão pouco quem recue às suas orientações.

Palavras são como as folhas secas do outono. Uma vez levantadas do solo, conduzidas a bailar solo ou coletivo, jamais voltam ao mesmo lugar. Igualmente, palavras pronunciadas jamais retornam ao emissor. Seu significado e beleza podem se perder, quando lançadas fora do tempo. Somos seus guardiões, responsáveis por guardá-las ou liberá-las. Sim, nos ensina a natureza, nos ensina o tempo, nos ensina a palavra, nos ensina o silêncio.

Há uma voz que fertiliza coragem no solo do coração. Tal voz transcende o silêncio permissivo da alma, enraizando os pés no solo das indagações. O  instante ordena a permanência fora da zona de conforto. É preciso um olhar distinto, um anseio novo, permissão para transmutar e alargar as fronteiras.

Sejamos destemidos. Cada estação trará suas texturas, fragrâncias, tormentas e paz. O precioso tempo deixa claro que não há nada mais saboroso que o fruto da época. Nada fora, nada antecipado, nada tardio.

Entender que cada espinho protege a planta para o qual foi destinado, também é crescimento. Não ousamos tocar, quando é necessário fazê-lo, é com temor e respeito. Sábia natureza... Ela afirma que cada ser é único, raro e tem seu tempo. Seus problemas/espinhos, são apenas proteção. Tenhamos um olhar atencioso. Saibamos esperar o ciclo do tempo. Bom dia, Região dos Lagos! Bom dia, Brasil! Bom dia, humanidade. Afetuoso abraço!

*Viviane de Cássia é membro da Alacaf - Academia de Letras e Artes de Cabo Frio. Escritora, poetisa e palestrante, faz da escrita um concerto, harmonizando a vida ao reger as entrelinhas de novas estrofes a cada dia.