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Coluna

Do sonho à imersão

26 maio 2023 - 06h00

É incrível como a educação se torna leve quando encarada como arte. Ressalto que a definição para a palavra arte, segundo o dicionário Aurélio, é: “Capacidade humana de criação e sua utilização com vistas a certo resultado, obtido por diferentes meios".

O ser humano é tela viva. Tem cores, textura e exala fragrância peculiar. Estimula, dia após dia, a arte da interpretação. Somos máquinas perfeitas, dotadas de sentimentos diversificados, mas abusamos das aprovações e reprovações, esquecendo que a arte é admirável, com suas nuances refletidas em cada personalidade. Arte de ser humano, com janelas da alma abertas através do olhar. Um mar de possibilidades que encanta e nos refaz em cada cena exposta a essa maravilhosa tela que definimos por vida. Arquitetura humana, indiscutivelmente calculada, projetada, realizada pelo autor de uma tela única, denominada planeta Terra, que assina a arte, todos os dias, em cada amanhecer e instante que renova sobre nós este fôlego. Tal arte humana me encanta de maneira tal, que poetizo cada intenção... Poetizo a fala, o silêncio, o sussurro.

Lembro-me como se fosse ontem, antiga quarta série, atual 5º ano. Já gostava de ler e era muito estimulada por minha professora. Foi nesta época que arrisquei minhas primeiras rimas. Muito elogiada, seguia escrevendo, acreditando na força das palavras em registro. Achava aquele universo “mágico”, mas o que ninguém sabia é que eu tinha muita dificuldade em saber quando usar as letras “n” e “m”. Apenas minha professora observava e circulava, sinalizando meus erros constantes.

Recordo um dia especial, desses que se tornam memoráveis! Meus colegas de classe já haviam ido embora e minha condução não chegava. Foi ali, de maneira sábia, que aquela professora aproveitou uma oportunidade.

Imaginem a cena... Ela pegou muitas caixas novinhas de lápis de cores. Os tirou das caixas e os misturou em uma gaveta na minha frente. Ao término, pediu para que eu os separasse. Confesso, pensei que estivesse ficando louca. Comecei a separá-los e ficava cada vez mais triste, porque parecia que aquela tarefa, aparentemente tão simples, jamais chegaria ao fim.

Verdes, vermelhos, amarelos, azuis, rosas, marrons, cinzas, pretos e brancos... Pensava ter finalizado, quando ela disse, sorrindo, que estava errado, que eu havia organizado de maneira equivocada. Deus! Quase chorei, totalmente sem ação. Ela, pacientemente, pegou dois objetos com tonalidades azuis diferentes e mostrou-me, perguntando se eram iguais. Em seguida, pegou uma folha branca e rascunhou uma paisagem contendo o céu, o mar, uma árvore, montanhas, sol. Sinalizou com um “X”, cores contrárias para que eu pintasse a paisagem. A estranha sugestão foi para que eu invertesse as cores; marrom no céu, azul no tronco da árvore, amarelo nas folhas, verde no sol. Quando observei aquilo, sabendo que teria que cumprir com aquela tarefa, aparentemente “insana”, confesso, naquele instante chorei.

Ela ficou minutos me observando sem dizer qualquer palavra. Esperou pacientemente que eu compreendesse seu pedido e o atendesse. Assim o fiz. Ao término, pegou a paisagem e perguntou se estava bonito... Afirmei que não. Nem um pouco.

Com muito carinho, uma voz doce e um olhar acolhedor, minha professora da quarta série disse:

Assim são as letras, lindas quando colocadas cada uma em seu devido lugar. Ao misturá-las de forma correta, o sentido torna-se mágico, deixam de ser apenas letras e nos revelam verdadeiros segredos. Tudo o que você escreve é lindo, especial, mas vale lembrar que cada letra tem seu devido lugar em cada palavra. Observe quantos dedos você vê aqui? Dois, certo? Este é o “n”, apenas duas pernas... E agora, três dedos, certo? Este é o “m”. Se o invertemos, assim como à paisagem, ficam feios, perdem sua essência. O azul é perfeito no céu e no mar, lembrando que o mar apenas reflete o azul do céu, pois suas águas são cristalinas e o faz refletir, como um espelho. O verde é perfeito para a folhagem das montanhas e das árvores. O amarelo reluz o brilho intenso do sol. Desta forma, cada cor torna mágico um ambiente, e cada letra, agrupada de maneira correta, faz palavras revelarem segredos.

Não foi um castigo. Se você for capaz de contar a alguém esta experiência, saberá que aprendeu a lição. Se precisar ler e reler aquilo que não está nos livros, decorará e, algum dia, em algum momento, o tempo assaltará suas lembranças e este aprendizado não se encontrará em suas memórias.

Na mesma época iniciei meus estudos de piano clássico, seguido de outras imersões na vertente musical ao longo dos anos, como teclado, canto, violão, flauta doce, musicalização infantil, estímulo musical para TEA. A fusão das artes sempre me encantou, e poder trabalhar com as duas que tanto amo, poemas e melodias, foi a mais sábia das minhas escolhas.

Em 2013, após realizar uma palestra em uma feira literária, na cidade de Iguaba Grande, com o tema “Escola e Família, Unidas para Transformar”, fui abordada com a seguinte pergunta: “Você tem sua fala escrita?”. Fiquei surpresa. Minha fala poética, meu jeito de amenizar instantes difíceis... Utopia? Não mais! Não quando você entende o propósito da sua atuação.

Literatura por literatura nunca foi meu forte. Mesmo tendo um bom motivo e sentindo a aprovação de ouvintes e leitores, sempre esperei algo mais, algo em mim, por saber que tenho em Deus uma nascente. O autor desta obra de arte impecável, que é a nossa vida, quando assinou a minha, sabia que eu era uma fonte de águas em movimento. Sei que nem todos estão dispostos a pagar o preço deste movimento, desta atuação em prol da sociedade que se encontra além das fronteiras do seu próprio “eu”.

Sair da zona de conforto para que outras pessoas possam ser beneficiadas não é um projeto em pauta, quando a priori é viver. Mas aí está a graça, aí está a resposta. O ser humano só precisa saber “quando chegou”, e “o que veio fazer”. Quando entendemos isso, nos despimos de nós mesmos, lançamos fora o egoísmo e passamos a seguir com propósito. Basta uma questão de tempo, organização interna e uma dose extra dos três pilares que nos fazem alcançar resultados favoráveis: “foco, quando descobrimos nossa missão; disciplina, que nos condiciona à busca intensa e preparação; perseverança, que nos faz permanecer no foco, mesmo em dias contrários às nossas expectativas e perspectivas”. Arte de servir, arte de construir e reconstruir, arte de viver e ser humano. Arte de educar e repensar a educação!