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Coluna

Uma certa magia

10 setembro 2020 - 11h37

Quando me apaixonei pelo mundo da leitura, não sabia ainda o que era educação, não no sentido que sei hoje. Com efeito, quando me encantei pelo universo leitor, eu sequer lia, não no sentido do letramento. Eu era uma criança ainda sem a escola quando toquei, desfolhei, rasguei, cheirei, provei e absorvi meus primeiros livros, que não foram muitos, mas já exerciam sobre mim um fascínio que só a infância não daria conta de conter, eu precisaria de toda uma vida.

Mas foi mais tarde, na pré-adolescência, que a união se deu por completa. E afirmo: o preponderante para que a minha paixão não se acabasse no tempo tantas vezes estipulado aos enamorados foi, não diferente do amor entre humanos, o cuidado com que um certo jardineiro regou a minha flor de leitura, tão ainda semente, e fez dela um jardim. Meu pai, que me contava a maior parte das histórias que lia - muitas delas clássicos nacionais e internacionais- e declamava seus poemas preferidos pela casa, além de algumas canções entoadas em seu timbre grave e sereno, acompanhado por uma viola, foi o meu jardineiro!

 Lembro-me de que muitas das histórias ouvidas foram lidas e redescobertas por mim mais tarde. Ainda que ele não as estivesse contando, ele tinha sempre um livro em punho, ele tinha sempre um tempo para ler e assim, eu ia crescendo e absorvendo suas palavras contadas, seus restos de livros espalhados pelos cômodos, seus escombros de leitura que sobravam e iam enchendo as estantes, a casa e a minha alma, me atingindo, afetando e me formando leitora. Como no conto Felicidade clandestina, de Clarice Lispector, eu não era mais uma menina com seu livro, mais uma mulher com seu amante, ou seus amantes, se me permitem a luxúria literária. Eu me permito! 

Mas a minha felicidade só não era clandestina. Era assegurada, permitida, liberal e voluptuosamente prazerosa! Era a minha liberdade leitora, que para uma menina tímida, introspectiva e sensível culminaria numa explosão de sensações, fugas, voltas e crescimentos intelectual e afetivo. Vem dessa época a paixão por muitos títulos e autores e, com o tempo, fui descobrindo novos nomes, novas obras e tive, ainda que só por algum tempo, o prazer de girar ao contrário por esse ciclo leitor e apresentar ao meu pai gente e produções literárias que ele não conhecia e que foi descobrindo através de mim.

Tento repetir a história com as minhas meninas, mesmo consciente de que histórias não se repetem propriamente, são sempre únicas e inéditas. Porém, inspirada pelo que vivenciei, tento também descortinar a leitura como um dos maiores prazeres da vida e o faço não teorizando sobre a importância do hábito para elas, mas praticando. Leio histórias, poemas, canções, quadrinhos, receitas, entrevistas e toda sorte de gêneros que possam lhes interessar desde que eram bebês. Hoje, elas já têm suas autonomias leitoras e os seus próprios livros escolhidos, mas mantemos leituras conjuntas a fim de não perdermos esse caminho de união e entrelace familiar. 

Sim, as concorrências são imensas e constantes, incomparáveis ao meu tempo de criança. A tecnologia, que mais parece a bruxa feiticeira dos questionáveis contos de fadas, envolvente, sedutora e poderosa, tomou muitos lugares na sociedade, inclusive o das leituras do jeito que conheci. Ainda assim, eu acredito, e acredito porque vivencio, que para um leitor conquistado nada substitui um bom livro de papel, tanto que junto ao crescimento das tecnologias, há um crescimento vertiginoso do mercado literário, mesmo que isso traga também malefícios, como a banalização da literatura como arte e o acesso de muitos pseudos escritores a este mercado, mas isso já é assunto para outra crônica...

Por tudo isso, não posso conceber uma forma melhor de educar para a leitura do que o exemplo. Também não posso entender ou concordar na educação pela leitura sem o prazer do objeto lido. Usar a leitura diretamente para ensinar é, a meu ver, um erro.

Deve-se descobri-la como arte, como prazer, como lazer e, assim, sem querer e deliciosamente querendo-a de qualquer jeito, não sairemos impunes. Ela nos tirará dos lugares e sensos comuns, ela revolucionará cada perspectiva, ela nos fará questionar os próprios textos já lidos, à medida que cada texto novo mais maduro e mais completo se apresente, ela nos fará crer e duvidar, sonhar e acordar, ter esperança e indignação, ter consciência e se permitir paixões. Ela nos transformará!
Se isso é educação? É sim, mas ninguém precisa saber para não estragar a magia!