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Coluna

Sobre viver

25 janeiro 2021 - 12h37

Fiquei até tarde na última noite lendo publicações nas redes sociais. A notícia da vez é celebrativa - o que tem nos faltado no mundo e em especial em nosso país, visto todos os problemas específicos nossos que se acumulam aos gerais - a vacina chegou!

Não será nada fácil o acesso a ela, até todos sermos vacinados, o vírus continuará circulando cada vez mais à vontade em nosso meio, tendo em vista um relaxamento quase natural, ainda que irresponsável, de boa parte de nós. Mas, ela chegou! Sua chegada num Brasil cada vez mais obscurantista e negacionista quanto ao risco da doença e à necessidade e eficácia da ciência é sim um marco pra lá de especial.

 Parece que vim aqui falar sobre isso, mas não é sobre isso que pensei exatamente escrever, sim, as palavras tantas vezes vão tomando vida própria e fazem o que querem do espaço, do escritor, do leitor... Nem sempre é possível dominá-las, manejá-las, comprometê-las. Elas, contantemente, ganham vida própria, certo brio próprio ou certo curso impróprio. Mas, eis o meu desafio e não fujo a ele.

Eu queria mesmo é falar sobre viver, eu queria mesmo é sobreviver!

Sobre viver, queria paciência, coragem e resistência não apenas para esperar a vacina, melhores políticos, melhores relações, melhores pessoas, inclusive aqui dentro de mim. Sobreviver sabendo viver. Mas não há regras, receitas ou manuais, ainda bem! Por mais que o mercado capitalista, consumista e inclusive editorial tente nos impor essa tal maneira de viver melhor, ela de fato não existe, ela é busca, aprendizado minúsculo e constante, ela é caminho. Saber viver é também deixar doer, é fracassar, é errar, é frustrar-se, não é? Só dá para entender, apreciar e alongar sorrisos, quem sabe chorar, tantas vezes copiosamente. Mas não deixem eu ficar fazendo isso aqui não! Pulem essa parte, eu aconselho. Devo escrever de um jeito que repudio? Não devo ditar métodos, caminhos, formas, conselhos. Você, leitor, só você, saber viver os seus dias, e se não sabe, tudo bem também, ou até melhor, o conhecimento contínuo é talvez a melhor maneira de não desistirmos. Não saber, julgar-se um ignorante em muitas ou tantas coisas é uma garantia de não emburrecermos. Contudo, estou eu aqui novamente me rendendo à análises conselheiras. Estou eu aqui errando.

Acho que consegui uns pontos nesse duelo incoerente, mas sentido - ainda que não faça tanto sentido- com as palavras e esbarrei, de leve, no que minha inspiração meio torpe me propunha: Sobre viver é, repetidas vezes, o sobreviver. E creio que sobrevivemos pela curiosidade, pela vontade de conhecer pela leitura, de livros, de pessoas, de sentimentos, de fatos, de mundo! Sobreviver talvez seja estar atento, manter-se sensível, acordar, toda hora, para o outro e para o desconhecido, lutar contra a nossa vã vaidade de se achar pronto, bom e acabado. Ainda que não se perca o que cantou significado perene na alma.

Numa sociedade em que pela democratização da comunicação e do discurso, todo mundo é  um pensador e um pronunciador de verdades, está cada vez mais difícil aprender. Muita oferta, pouca seletividade. Verdades, pesquisas, ciência, lugar de fala, referência e estudo misturados à fakes news, reproduções automáticas, frases de efeitos, crenças populares e pessoais, análises não vivenciadas. É preciso muito cuidado com o que se aprende para não se desaprender, com o que se conhece para que não estejamos vulneráveis à mentiras, manipulações e, sobretudo, preconceitos.

Creio que não teve jeito, apesar de ter escrito quase o que planejei, esta crônica tomou uma estrada injuntiva, e eu não vou mais brigar com ela, vou permitir esse caminho por hora, tudo bem pra você?  Da próxima vez, prometo ser mais poética, figurativa, sugestiva... Enquanto isso, esperarei a vacina, as mudanças políticas tão almejadas, as curas dos males (não, já não basta o singular...) tentando sobreviver, tentando aprender sobre o viver, tentando escrever.