A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca, obra escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare (1564–1616), traz no seu enredo um registro icônico, quando o personagem principal reflete sobre a existência humana, a dor de viver em um mundo difícil e o desconhecido após a morte. Na sequência, levantando com uma das mãos um crânio humano, diz: “Ser ou não ser, eis a questão”. Esta obra, que não tem um final feliz, mais do que ensinar um preceito moral, levanta a reflexão sobre a consciência humana, seus dilemas existenciais e a ambiguidade moral das nossas escolhas. No enredo, o excesso de reflexão e a incapacidade de agir no momento certo paralisam o herói, mostrando que a indecisão pode ser tão perigosa quanto o impulso cego. O tempo passou e o homem continua o mesmo, vivendo de aparências, sem enxergar a si mesmo.
Esta crise de identidade é perceptível em muitas pessoas, o que levou o escritor e filósofo espanhol Miguel de Unamuno (1864–1936), no seu livro “O sentido trágico da vida”, publicado em 1912, a dizer: “Cada pessoa é, na realidade, três: aquele que acreditamos ser, aquele que os outros acreditam que somos, e aquele que realmente somos”. Esta questão de identidade, intensificada nos últimos anos com o surgimento das redes sociais, quando a exposição excessiva, os recursos de alteração de imagem e a necessidade de ser admirada e invejada, tem desfigurado o verdadeiro ser das pessoas. Uma frase atribuída ao alemão Albert Einstein (1879–1955) diz que: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”. Para os estudiosos do comportamento humano, o momento que vivemos permite fazer uma releitura do pensamento de Unamuno, basta observar a postura de alguns dos muitos candidatos a cargos eletivos nas eleições deste ano. Aplausos, paparicação, ovação, são algumas das manifestações populares que fazem com que se sintam importantes, com o ego em alta; por outro lado, os sorrisos forçados, abraços com direito a tapinha nas costas, companhia em cafés, promessas das mais diversas espécies, fazem-nos admirados e idolatrados; mas no fundo, quando caem na realidade, descobrem que tudo é uma encenação.
O Marquês de Maricá (1773–1848), escritor e filósofo brasileiro, disse certa vez: “Os homens preferem geralmente o engano, que os tranquiliza, à incerteza, que os incomoda”. Diz-se que é mais fácil o homem enganar-se a si mesmo do que ser enganado pelo próximo, a começar pelo sentimento de imortalidade, apesar da consciência de que vai morrer.
Uma frase de origem popular diz o seguinte: “Queres conhecer um homem, dá-lhe poder”. É impressionante a transformação que uma pessoa ostenta quando alcança posição de poder. A famosa “Você sabe com quem está falando?” é uma das provas disso. Certa vez, estando na administração pública, fui convidado para participar de uma recepção a um deputado estadual que estava em evidência no cenário político. Depois de esperar por mais de uma hora, o convidado chegou, dirigindo-se diretamente ao anfitrião, sem sequer cumprimentar os que por ele esperavam. Tempos depois o altivo político caiu em desgraça, perdeu o mandato, inclusive sendo preso. Ele pensava que era poderoso, achavam que ele era o cara, no final não era nada. Mas esta mudança de identidade não é exclusiva de políticos, estende-se a celebridades artísticas, empresários e novos-ricos.
Finalizo com uma citação do poeta espanhol Francisco de Quevedo (1580–1645): “A soberba nunca desce de onde sobe, mas c
