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Coluna

Síndrome de Pigmalião

24 setembro 2026 - 12h58

A Grécia representou o berço dos grandes filósofos, pensadores que marcaram a história ao usar a razão e a lógica para explicar o mundo, mudando o foco dos mitos para a investigação científica e filosófica. Impressiona a atualidade de alguns desses mitos, como o de Pigmalião, que foi, na mitologia, um rei da ilha de Chipre, cuja paixão era a escultura. Ele havia decidido viver em celibato após se desiludir com o comportamento das mulheres de Chipre. Ao esculpir uma estátua de marfim representando o ideal absoluto de beleza feminina, alcançou um trabalho tão perfeito que se apaixonou por ela, chamando-a de Galateia, ornando-a com joias e tratando-a como se tivesse vida, beijando-a e acariciando-a. Segundo a história, durante a festa da deusa Afrodite, Pigmalião foi ao templo fazer um pedido. Pediu uma mulher ideal, perfeita, igual à sua estátua. Afrodite, deusa do amor, acolheu sua intenção. Quando voltou para casa e beijou sua obra, sentiu que ela ganhava vida. Eles se casaram e tiveram uma filha que recebeu o nome de Pafos, que deu nome a uma cidade de Chipre. Para os gregos era a prova de que a arte pode superar a natureza.

Esta história inspirou diversas releituras nas artes visuais, na literatura, no teatro e no cinema, como a famosa peça “Pigmalião” de George Bernard Shaw, e o musical “My Fair Lady”, que conta a história de Eliza Doolittle, uma jovem pobre que vende flores nas ruas de Londres. Outros filmes, como Boneca de Luxo e Blade Runner utilizaram o mesmo tema focando no ser humano que se apaixona por uma criação artificial.

Nos tempos atuais, o efeito Pigmalião tem sido estudado pela psicologia mostrando que as expectativas de uma pessoa sobre outra influenciam diretamente no seu desempenho. Tem sido provado que quando tratamos as pessoas baseado no que acreditamos que elas são, respondem se tornando exatamente isso. Assim como no mito, nosso foco e admiração têm o poder de dar vida às pseudoqualidades dos outros. Isto pode ser observado no campo da política, quando personagens são elevados à condição de irretocáveis, mesmo não sendo, passando a ser idolatrados por seus seguidores. A cegueira dos adoradores leva-os a não perceberem erros nos seus líderes, a acreditarem em tudo o que dizem, criando um campo fértil para a instalação de governos corruptos, ditatoriais, insensíveis àqueles que os levaram ao poder. Uma frase atribuída a Maquiavel diz que: “O dia em que o cego recupera a visão, a primeira coisa que ele joga fora é a sua bengala, que o ajudou”. Assim são tratados, na maioria das vezes, os seguidores de políticos, até a próxima eleição.

Nessa linha, encontramos os chamados “influenciadores digitais”, que representam um fenômeno moderno que usam as redes sociais para criar conteúdos, construir uma audiência e moldar opiniões, comportamentos ou hábitos de consumo, nem sempre ortodoxos.

O Brasil tem forte destaque mundial nesse setor. Milhões de pessoas produzem conteúdo ou se consideram criadoras ativas nas redes. O mercado movimenta bilhões de dólares em campanhas de marketing de influência.

A veneração por pessoas tem chegado ao ponto de levar adoradores a tirar a vida dos seus mitos. Casos como o de John Lennon, em 1980, famoso componente do Beatles, morto por Mark David Chapman; Selena Quintanilha, em 1995, cantora, rainha da música tejana, morta por Yolanda Saldívar, presidente do seu fã-clube; Christina Grimmie, em 2016, cantora americana, morta por um fã, Kevin James Loibl, que nutria uma fixação obsessiva por ela; e tantos outros casos.

John F. Kennedy (1917–1963), ex-presidente americano, disse certa vez: “O grande inimigo da verdade não é muito frequentemente a mentira, mas o mito: persistente, persuasivo e não realista”.