Durante o período colonial brasileiro, final do século XVII e início do século XVIII, o Brasil passava pelo auge da exploração do ouro e outros metais preciosos. Para escapar da taxação de 20% imposta pelo governo português, popularmente conhecida como “quinto dos infernos”, os mineiros, tropeiros e até padres passaram a fabricar imagens de santos em madeira, com um detalhe: o interior era oco. As imagens eram preenchidas com ouro em pó e outros metais que estavam sujeitos à taxação; com isso, passavam pela fiscalização da Coroa Portuguesa sem serem percebidas. E havia uma razão mística: ninguém ousava mexer com uma imagem sacra, isso era considerado um sacrilégio, e era comum todo viajante andar com um santinho como forma de proteção. Em razão dessa prática, foi criada a expressão “santa (ou santo) do pau oco”, para designar ações fraudulentas ou caracterizar indivíduos de caráter duvidoso ou ainda o nível de falsidade e hipocrisia de alguém. Em sentido figurado, a expressão serve para indicar uma pessoa que aparenta ser algo que não é, iludindo todos à sua volta. Abraham Lincoln (1809–1865), 16º presidente americano, disse certa vez: “É possível enganar algumas pessoas o tempo todo, e todas as pessoas por algum tempo, mas não é possível enganar todas as pessoas o tempo todo”.
Estamos em período pré-eleitoral; dentro de poucos dias o povo brasileiro estará escolhendo os políticos que governarão o país pelos próximos quatro anos. A ânsia é grande; são gastos milhões em propagandas exibidas através dos meios de comunicação e folhetos de diversos formatos. E nesse vale-tudo, a diversão é gratuita. Teve um candidato em Belo Horizonte, cuja plataforma é a liberação da maconha, que levou um vaso com uma cannabis plantada. Para não ser preso, estava com um advogado ao seu lado e um habeas corpus preventivo, mas isso não evitou que tivesse o objeto da sua causa apreendido. Candidatos de diversos partidos desfilam projetos que jamais poderão cumprir; outros, com mandatos, prometem o que já poderia ter sido feito e não fizeram; a maioria não possui o mínimo conhecimento do funcionamento da gestão pública, pois o primeiro princípio a ser observado é a indicação da fonte de custeio para os projetos que impliquem em custos, mas, como todos prometem reduzir os impostos, como obterão recursos? Interessante é que não vi ninguém apresentar projeto que visasse o desenvolvimento nacional, geração de empregos que não fosse o público, enxugamento da máquina pública, estudos para redução de tarifas públicas, entre outras medidas que projetariam nosso país no cenário internacional, atraindo investidores para ingressos de divisas. A maioria dos projetos, se propostos, cairia na conta do erário.
Há um programa exibido na televisão brasileira, A Praça é Nossa, que apresenta um quadro com o personagem João Plenário, representando um político sem escrúpulos que vive de levar vantagens à custa do erário. Num desses episódios o apresentador Carlos Alberto diz: “Isso é enganar o povo o que o senhor está fazendo”. E o João Plenário responde: “O povo que se lasque, o importante é ganhar a eleição”. Parece mesmo que o povo gosta de ser enganado, caem no discurso dos candidatos que voltarão a ver só daqui a quatro anos. Há um ditado popular que diz: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”. Esta metáfora compara algo ou alguém que tem um exterior bonito, atraente ou arrumado, mas que por dentro esconde problemas, defeitos, falsidade ou falta de valor.
No fim, o santo de pau oco é a própria essência do jeitinho brasileiro: a fé por fora, a sobrevivência por dentro.
