O livro “Poesias”, publicado originalmente em 1942, escrito pelo poeta e cronista brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902–1987), retrata a angústia existencial, a solidão e o sentimento de desamparo diante do fim de uma época ou de expectativas frustradas após o término de um ciclo, a volta à realidade, que muitas vezes é feita de silêncio e escuridão. O texto começa assim: “E agora, José? / A festa acabou / a luz apagou / o povo sumiu / a noite esfriou / e agora, José? / você que é sem nome / que zomba dos outros / você que faz versos / que ama, protesta? / E agora, José?”.
O final de uma festa retrata o esvaziamento, a luz apagada, o povo indo embora e a noite envolvendo com sua friagem. O poeta, em dado momento, deixa o José e passa a se dirigir a “você”, que pode ser qualquer um de nós que passa pelo fim de um ciclo.
O atual momento da vida política brasileira, término de período eleitoral, é o fiel retrato do sentimento que se apodera de muitas pessoas que participaram, direta ou indireiramente, da campanha. Antes, bandeiras, cânticos, muita alegria, gritos e outras manifestações de entusiasmo e esperança. Agora a volta para casa e até a próxima eleição. Segundo os psicanalistas, o sofrimento e o sentimento de vazio, bem como a perda de identidade de uma pessoa que deixa uma posição de poder são, na psicodinâmica, associados à “síndrome de húbris” (quando o poder afeta a personalidade e o comportamento) ou crise de despersonalização pós-poder, mais conhecida como “o vazio do poder”. No day after (dia seguinte pós-poder), os amigos desaparecem, cessam os convites para eventos, restando o silêncio e a escuridão psicológica, em alguns casos o surgimento de sintomas de depressão. Para os vencedores, as batatas, e aos perdedores o ódio ou compaixão; esta é uma síntese da filosofia fictícia chamada humanitismo, criada pelo personagem Quincas Borba, no romance de mesmo nome, escrito por Machado de Assis. As promessas feitas, e que não poderão ser cumpridas, não constituem problema para os vencedores, pois a “cara de pau” da maioria ajuda-os a conviver com suas consciências. E, se perguntado: “E agora, José?”, será respondido: “Até a próxima eleição”.
Uma cena muito comum, na maioria das cidades, é o final de uma feira livre. Após seis ou oito horas de funcionamento com muita procura e escolhas pelos melhores produtos, ocorre o que é chamado de “momento da xepa”, quando as mercadorias não adquiridas e que não apresentam a melhor das aparências começam a ser vendidas por preços reduzidos. E as que não forem adquiridas serão descartadas para o lixo. No meio social é muito conhecida a “xepa da festa”, momento sagrado no final do evento em que os convidados, ou mais íntimos, atacam os doces e salgadinhos restantes, e montam as famosas “marmitinhas” para levar para casa. Na Bíblia há uma referência ao que se faz em final de festa: quando Jesus realizou seu primeiro milagre, transformando água em vinho, houve um comentário por parte do “mestre-sala” (encarregado da festa), dizendo que o noivo havia guardado o melhor vinho para o final, pois a prática era deixar os da pior qualidade para o final, quando os convidados, já embriagados, não notariam a diferença.
A maioria das pessoas não está preparada para um final, seja de uma carreira profissional, de um cargo eletivo ou da própria vida. Uma das maiores indignidades perpetradas contra um ser humano acontece quando é vítima de uma discriminação pela idade. Alguns povos honram seus idosos, reconhecendo sua contribuição para a sociedade, desconstruindo a tese de que suas vidas se resumem a canseira e enfado.
Mesmo sem saber para onde ir ou o que fazer, o José do poema não desiste e continua a marchar no escuro.
