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Coluna

Pandemia

25 fevereiro 2022 - 07h55

Jean de La Fontaine (1621 – 1695), poeta e fabulista francês, escreveu uma centena de fábulas de cunho moral, abordando inúmeras situações da vida humana, utilizando os animais como metáfora. Uma dessas é a parábola dos animais durante uma pandemia. Conta ele que um dia chegou a peste, espalhando o terror por todo o mundo. Com consequência devastadora, atingiu também os animais. Nem todos morreram, mas foram afetados pela doença. Com medo da contaminação, já não se alimentavam direito, raposa e lobo deixaram de perseguir suas presas, os passarinhos fugiam uns dos outros, já não havia amor nem divertimento entre os animais.

O rei leão, preocupado com aquela situação, convocou uma assembleia e disse: “Meus caros súditos, esse infortúnio veio para castigar nossos pecados”. “Assim, para o bem da saúde de todos é necessário que cada um faça um exame de consciência e aquele que for achado com mais pecados, morra sacrificado para aplacar a ira dos deuses”. E o leão saiu logo na frente se justificando: “No meu caso, devorei muitos carneiros. No que eles me ofendiam? Em nada. E houve até uma ocasião em que comi o pastor do rebanho. De modo que, assim como eu me acusei, é necessário que cada um de vocês se acuse também. E que caiba ao maior dos culpados, a morte”.

Em seguida, interferiu a raposa: “Meu senhor, és um rei bom, não sejas tão escrupuloso, como poderia ser pecado devorar carneiros, essa raça desprezível e estúpida? Não, não, foi uma honra para eles serem triturados por sua majestade”. Mal acabou de falar a raposa, a corte real, formada por bajuladores, explodiu em aplausos. E um a um os demais animais foram arrolando seus pecados, sem que fossem investigadas a fundo suas ofensas. Chegou a vez do burro, que disse: “Eu me lembro, que passando com fome pelo prado de um mosteiro, a ocasião e o tenro capim me levaram a comer um pouco daquela grama, certamente impelido por algum demônio. Eu não tinha esse direito!”.

Depois dessas palavras, a atitude do burro foi imediatamente posta em causa. Um lobo, mais ou menos instruído, fez um discurso provando que era necessário sacrificar o burro, fonte do mal que estavam sofrendo. Não havia crime mais abominável, nada além da morte seria capaz de expiar esse pecado. E o burro foi sacrificado.

Vivemos dias tenebrosos em função da pandemia do “covid 19” que assola o mundo, vitimando fatalmente milhares de pessoas. Qual espécie de pecado estamos expiando? Muitos, seria a resposta. Mas, como na fábula, quem deverá ser sacrificado para que cesse esse mal? Os políticos insensíveis às tribulações alheias? Os donos de laboratórios que cada vez mais estão enriquecendo com essa doença? Os banqueiros que nada perdem, pelo contrário, aumentam seus lucros com redução das despesas e concessão de empréstimos para os comerciantes endividados? O governo, principalmente Estados e Municípios, que recebem verbas especiais como fundo emergencial para aplicação imediata com contratação direta? Os capitalistas que nunca deixam de ganhar? O povo?

Segundo dados divulgados pela imprensa, dos 10 bilionários que mais se enriqueceram com a Pandemia, três são do setor farmacêutico. O diretor da Associação Mundial de médicos, Frank-Ulrich Montgomery, criticou recentemente os lucros “indecentes” dos fabricantes de vacinas.

Alguns setores passaram incólumes por esse período. A indústria bélica, por exemplo, uma das mais lucrativas do mundo, após o segmento dos bancos e farmacêuticos, alcançou em 2020 faturamento de 1,85 trilhões de reais. É evidente que não interessa a países como Estados Unidos, China e França, que haja paz no mundo, por serem os maiores fabricantes de armas. A guerra é altamente lucrativa.

Mas, como na fábula de La Fontaine, precisamos de um culpado para ser sacrificado pela expiação dos pecados que estão redundando neste castigo. Sobrou para o contribuinte, para o assalariado, cujo pecado imputado foi ter trabalhado, contribuído com impostos, enfrentando filas na rede pública de saúde. Em suma, para o povo que está sempre à espera da assistência dos governos em suas esferas, amordaçados pela potência das suas relevâncias e açoitados pela injustiça social que culmina na morte de qualquer progresso. Sim, na ótica do capitalismo desse mundo, o culpado é o povo. Mande-o para o sacrifício.

Albert Camus (1913 – 1960), escritor e filósofo franco-argelino, em seu livro “A Peste”, deixa-nos uma mensagem muito apropriada para os dias de pandemia que estamos vivendo: “Quanto mais a pandemia se estender, mais a moral se tornará Elástica. O que é verdade em relação aos males deste mundo é também verdade em relação à peste. Pode servir para engrandecer alguns. No entanto, quando se vê a miséria e a dor que ela traz, é preciso ser louco, cego ou covarde para se resignar à peste”.

*Clésio Guimarães é empresário, professor, administrador de empresas e representante do CRA-Conselho Regional de Administração.