Fundado na década de 1970, o Bloco Parókia transformou o amor pela música popular em um patrimônio para a cultura de Cabo Frio. O grande pilar dessa história de resistência foi Kleber da Silva Costa, o “Seu Binho”. Ele passou a vida transmitindo a alegria das ruas e o respeito à tradição carnavalesca. O folião teve a oportunidade de celebrar seus 93 anos em pleno Carnaval deste ano. Agora, a trajetória do comerciante se eterniza em legado, após o seu falecimento ocorrido no último sábado (16).
Em fevereiro, a Folha publicou uma reportagem exaltando a resistência da agremiação. O bloco, que nasceu nos no bar do Seu Binho, junto com seus irmãos e cunhados músicos, é hoje o mais antigo e tradicional ainda em atividade em Cabo Frio.
Na época, Debora Machado (filha adotiva de Seu Binho), disse à Folha que o rigor do pai no balcão do bar era o segredo da harmonia do Parókia: "Ele não vendia bebida para a pessoa que já estava alterada. E fazia isso para não passar do limite, para não ficar aquela coisa chata. Então, as pessoas tinham a tranquilidade de trazer seus filhos e esposas para almoçar no domingo no bar" - revelou. No sábado ela postou uma homenagem nas redes sociais
– Pai, vocês me escolheram para ser sua filha, e dedicaram a maior parte do tempo em educar e ensinar.
Sua música entrou em meu DNA e em tudo que faço. A dor da sua partida traz um misto tenebroso que a vida toda tive medo, e o silêncio mais barulhento que existe. Pai, te amo, e obrigada por tudo que fez por mim. Prometo que farei do Parokia o que você sempre levou, o amor!
Presidente do bloco há três anos, Fernanda Carriço exaltou a importância de Seu Binho para a família parokiana.
– É uma pessoa que deixa um legado de contribuição para a cultura, para o samba, para o carnaval de rua. Eu tenho uma admiração muito grande por ele, porque, além de tudo, era muito apaixonado pelo bloco. Eu fiz os últimos quatro carnavais, e ele esteve presente em todos os ensaios, todos os eventos que eu fiz. Ele estava muito feliz. Ficou muito feliz com a minha entrada na Parókia, com o renascimento do Parókia. Ele gostava muito de mim, e o que ele passava para mim era o amor pelo bloco, e uma gratidão pelo trabalho que eu estava fazendo. Ele sempre falava isso. Então, eu acho que é uma perda imensa. O legado dele no Parókia é o amor ao bloco, é essa paixão parokiana eterna, sabe? Eu acho que esse é o legado dele. Além de ter sido o fundador do bloco, um parokiano apaixonado. Quem conhecia Seu Binho ali, no ensaio, via a paixão dele, e isso era contagiante - contou.
E esse amor de Seu Binho pelo bloco do coração sempre foi recíproco.
– Todos os anos a gente fazia homenagem pra ele. Nos anos que eu fiquei à frente do Parókia, a gente sempre parava na frente da casa dele e tocava uma música, geralmente “Amigo de fé, irmão, camarada”. Esse ano o aniversário dele caiu no dia do bloco, na terça-feira de Carnaval, e a gente parou em frente à casa dele e cantou parabéns, cantou “amigo de fé, irmão, camarada”. Ele ficou muito emocionado. Foi muito bonito. Eu tive uma alegria imensa de ter homenageado ele em vida: em todas as oportunidades que eu tive, eu fiz. Ele falava assim “você foi a melhor presidente que o Parókia já teve, você não pode sair nunca mais”. E eu dizia: “Oh, Seu Binho, não faz isso não, senão eu morro” - revelou Fernanda.
Foliã de carteirinha do Parókia, a memorialista Meri Damaceno lembrou, em conversa com a Folha, que Seu Binho foi o último fundador do bloco a nos deixar.
– Teve o privilégio de viver 93 anos e ser homenageado em vida pelo Parókia. Nos últimos anos, Binho estava ali, no meio da gente, dando um abraço afetuoso, cantando as velhas marchinhas, saudando a bandeira… Ficamos triste com sua partida, mas a família parokiana tem a absoluta certeza que Binho levou com ele todos aqueles dias festivos, regados com beijos, abraços e muito carinho. O seu maior legado, sem sombra de dúvidas, chama-se família parokiana. Não me recordo no momento de algo envolvendo Binho e o carnaval. Mas guardo com carinho que, em 2020, fui escolhida como Musa do Parókia. A alegria dele ao meu lado, nas fotos, cercado da banda e dos amigos, foi algo muito marcante pra mim. Binho estava muito feliz -contou.
Nas redes sociais, Seu Binho também recebeu muitas homenagens após o comunicado do seu falecimento. A produtora cultural Taz Mureb lembrou que ele era “uma pessoa ímpar, sempre envolvido com a música popular, com as pessoas. Muito querido! Amigão dos meus dois avôs. Aposto que tão botando o bloco lá no céu”. Joir Reis, presidente da Associação de Blocos e Atividades Carnavalescas de Cabo Frio (ABACCAF), disse que vai sentir falta do “grande mestre”.

Seu Binho comemorou 93 anos este ano, em pleno carnaval cabo-friense - Crédito: Reprodução Instagram Bloco Parókia


