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Coluna

Os novos filmes do cinema espanhol

17 setembro 2022 - 11h47

Na coluna de abertura sobre o cinema espanhol citamos filmes contemporâneos fora da caixinha. Hoje falaremos um pouco mais sobre eles. Nas últimas semanas escrevemos ainda colunas inteiras sobre as obras-primas “Mar Adentro”, “Fale com Ela” e “A Pele que Habito”. A Espanha é o terceiro país que abordamos nessa coluna sobre Cinema na Folha dos Lagos – antes foram França e Alemanha. Todo conteúdo, além do jornal impresso, se encontra no site da Folha dos Lagos, e de acesso amplo e gratuito.

“O Poço” e o abismo da fome - Na última semana foi registrado um número global de casos por Covid-19 menor em cerca de 30% a semana anterior. Sim, enfim, após dois anos e meio, conseguimos enxergar o fim da pandemia. Desde os meses de julho e agosto, aqui em Cabo Frio, como no Brasil, a vida do “antigo normal” recomeça. Em breve essa pandemia será apenas uma memória na maioria da população. Nós brasileiros pagamos um altíssimo preço, cerca de 35 milhões de infectados e quase 700 mil mortos até o momento, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, com mais de um milhão de mortes, no topo dos países do mundo. 

Aqui no Brasil o que essa pandemia mais escancarou foi a fome! Nosso país retornou ao Mapa da Fome em junho de 2020, e hoje o número de pessoas passando fome dobrou nesses dois anos, de 14 milhões para 33 milhões, segundo dados do “2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”, pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Penssan). O filme “El Hoyo” (O Poço) de Galder Gaztelu-Urrutia, lançado em 2019, meses antes da pandemia, é um retrato desse abismo na humanidade. Feito de excelentes metáforas, camadas, diálogos, o filme é uma alegoria precisa de crítica social, moral e política (da falta de política pública de segurança alimentar). Quanto mais abaixo no poço, mais difícil a sobrevivência e a moralidade humana.

“Um Contratempo” e a trilogia do “Baztan” – “Contratiempo” (2016), do diretor Oriol Paulo, é outro excelente filme recente do cinema espanhol. A trama do filme é bem construída, revela quem é Adrian, sua amante Laura, e até onde iriam para manter uma reputação social. É um filme imprevisível. Ainda no gênero de suspense temos a interessante trilogia do “Baztan” (“O Guardião Invisível”, “Legado nos Ossos” e “Oferenda à Tempestade”), de 2017 a 2020. A inspetora Amaia Salazar (Marta Etura) lidera uma investigação que vai levá-la de volta para Elizondo, a aldeia das chuvas no coração do País Basco, onde ela nasceu e para a qual ela esperava nunca mais voltar. Baseado no romance homônimo Os novos filmes do cinema espanhol de Dolores Redondo, o diretor Fernando González Molina se apegará aos detalhes e a tensão como fios da narrativa.

“Palmeiras na Neve” – “Palmeras en la Nieve” (2015) do mesmo diretor Fernando González Molina, é um filme belíssimo, com uma fotografia exuberante, bem trabalhada. Após a morte de seu pai, Clarence (Adriana Ugarte) descobre uma carta. Enquanto busca respostas, ela embarca em uma jornada que a leva à ilha da Guiné Equatorial, na África, onde começa a desvendar os segredos de sua família, em um território exuberante, sedutor e perigoso. O filme revela duas histórias, dois romances, em épocas distintas, anos 50 e atuais.

“Silenciadas” – “Akelarre” (2020). No século XVI, em meio à vida simples de pescadores no País Basco e os ritos locais em suas celebrações, a chegada do juiz Rostegui (Alex Brendemühl) irá sentenciar o destino de seis mulheres, acusadas pela Coroa espanhola de bruxaria. As seis mulheres têm um plano e precisam ganhar tempo até o retorno de seus maridos pescadores e familiares. Ana (Amaia Aberasturi) liderará esse plano. O filme mostra toda essa estrutura de poder religioso, patriarcal e econômico. O diretor Pablo Agüero usa um elemento linguístico na construção da trama: a própria língua basca (ou euskera) falada entre suas protagonistas.

(*) Lucas Muller é documentarista e graduando em Letras na UFF