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Coluna

O rei está nu

20 janeiro 2022 - 17h16

Um conto do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805 - 1875) relata a história de um rei muito severo e vaidoso; não admitia ser contrariado. Certo dia apareceu um homem se dizendo alfaiate, na verdade um charlatão, e se ofereceu para fazer a roupa mais bonita que qualquer monarca, em todo o mundo, jamais havia tido. Mas tinha um porém, ele avisou que somente as pessoas inteligentes poderiam vê-la. O rei, tocado pela vaidade, logo se interessou e o contratou. Providenciou todos os materiais que lhe fora solicitado. Fios de ouro, tecidos finos, adereços de diamantes e tudo que havia de melhor e mais valioso. Acomodou o “alfaiate” em um atelier e deixou que desenvolvesse seu trabalho. Passadas algumas semanas, como não teve notícia, o rei foi ao local onde estava sendo confeccionada a roupa. Viu uma mesa vazia, e o homem fazendo inúmeros movimentos como se estivesse medindo, costurando, esticando etc. O rei, para não transparecer diante de seus súditos que não estava vendo nada, começou a elogiar. Por sua vez, os súditos presentes, que nada viam, para não passarem por ignorantes, também elogiaram. Após mais uma semana, o alfaiate deu o trabalho por terminado e convocou o rei para ir vestir a roupa. Este, para não deixar passar em branco, convocou todo o povo para um desfile onde ele mostraria sua nova roupa. Assim foi feito. Com o rei nu, e todos fingindo que viam as vestes reais, o desfile seguiu, mas não se manifestavam para não passarem atestado de ignorantes. Somente uma criança, na sua pureza e inocência, vendo toda aquela encenação, gritou: “o rei está nu!!”.

Andersen criou uma metáfora à sociedade, onde todos vivem em função de modismos, sem questionar os padrões comportamentais uns dos outros. Este comportamento pode ser explicado sob aspectos da psicologia evolucionista, onde se prefere seguir o grupo a questioná-lo.

Assim se explicam os modismos que surgem em todas as áreas, influenciando pessoas a adotarem certas práticas, algumas beirando o ridículo. Isso acontece no meio religioso, social, político e econômico. Recentemente, vimos surgir o modismo dos investimentos financeiros através de empresas que administram Bitcoins, com promessas de rentabilidades fora da realidade do mercado. A ganância falou mais forte que a razão, uns influenciando os outros, e no final levando muitos a sérias perdas.   

Em nossa sociedade foi institucionalizado o “puxa-saquismo”, onde, para não desagradar o chefe, a maioria acaba concordando com tudo que ele diz ou faz, somente para não contrariá-lo. Dessa forma abre-se caminho para decisões erradas que acabam redundando em perdas irreparáveis para toda sociedade. 
Samuel Goldwyn (1878 – 1974), produtor e fundador dos studios de cinema Metro Goldwyn Mayer, disse certa vez: “Não quero puxa sacos perto de mim, quero gente que me diga a verdade, mesmo que isso lhes custe o emprego”.                                                           
 No meio político não é diferente. Presidentes, governadores e prefeitos, eleitos pelo povo, normalmente são oriundos de áreas profissionais distintas da administração pública. São médicos, militares, advogados, empresários, ou mesmo políticos de carreira, o que gera a necessidade da contratação de assessores para que possam administrar com o máximo de equidade.  Normalmente quem comanda não precisa conhecer sobre tudo, mas precisa cercar-se de auxiliares competentes e confiáveis, conselheiros fieis que emitam pareceres seguros, e que saibam dizer não ou até mesmo contrariar o “chefe”. 
 Por mais de uma década exercendo função pública no primeiro escalão, vivenciei muitas situações em que tive de devolver processos com pareceres favoráveis emitidos apenas para agradar o “chefe”.  

Lembro do meu primeiro emprego, tinha 17 anos. Meu patrão, um senhor português, muito rígido e severo, impunha temor em todos os funcionários, que sequer ousavam mexer a cabeça para não desagradá-lo. Logo no primeiro mês, ele me deu uma ordem para executar determinada tarefa. Como achei que o que ele queria não era o melhor, ousei contrariá-lo, expondo minhas razões. A princípio, ficou furioso, mas como não esmoreci e olhei nos olhos dele, ele parou, refletiu e disse: “menino, gostei de você, pode fazer como você sugeriu”. Essa atitude me levou mais tarde ao cargo de gerente administrativo da empresa, e alguns anos depois me fez sócio dele em outro empreendimento.

No conto de Andersen as pessoas tinham consciência da situação vexatória que o rei estava passando, mas, para não se comprometerem, preferiram se calar, evitando serem criticadas ou até mesmo punidas. 

O apóstolo bíblico, Paulo, assim escreveu aos colossenses: “Tenham cuidado que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo”.
 Há um ditado popular que diz: “Quem muito agrada, nem sempre quer o seu bem”.