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Coluna

O desejo e o outro no “Fale com Ela”

20 agosto 2022 - 15h33

Almodóvar talvez seja o maior nome contemporâneo do cinema espanhol. Seus filmes de cores quentes tem uma marca: a coragem em falar de temas sensíveis (na maior parte das vezes cotidianos, mas pouco explorados), de mostrar as nossas fraquezas, paixões, desejos, obsessões, vaidades. O diretor parece não se importar com o amor ou o ódio com que o espectador verá sua obra, e isso a torna bem original.

Em “Hable con Ella” (Fale com Ela, 2002) temos duas histórias paralelas que se cruzarão no filme. De um lado, a toureira Lydia (interpretada por Rosario Flores), a força que ela passa durante o toureio, como movimenta a capa vermelha na tauromaquia, sua espécie de dança fatal; e o jornalista do El País Marco (interpretado pelo ator argentino Darío Grandinetti), que a observa, se comove, sente a dor do outro nesse espetáculo cruel e também em espetáculos de dança e música. Marco irá apaixonar-se por Lydia. Do outro lado temos o enfermeiro Benigno (Javier Cámara), sensível à primeira impressão, e a estudante de balé Alicia (Leonor Watling) que está em coma, cuidada por Benigno (significado de nome: caridoso, uso de metalinguagem). Nessas duas histórias que serão uma, o filme se aprofundará no conhecimento desses personagens.

Marco e Benigno, pelas circunstâncias da vida, se tornarão amigos. Talvez Marco seja o único amigo que Benigno teve na vida. Alicia e Lydia serão colocadas lado a lado, sem voz. Em determinada cena Benigno pede a Marco: “Fale com ela.”

Nesse conjunto de características singulares de cada personagem, Almodóvar humaniza seus personagens, cria coragem de destruição da caricatura: homem forte, mulher frágil. Todos nós temos altos e baixos, somos fortes e frágeis em determinado ponto, que nos atinge, de formas diferentes. Em “Fale com Ela” pode ser numa fobia, numa imposição social, numa imposição familiar, em escolhas erradas – e, sim, fazemos isso na maior parte das vezes. No relacionamento amoroso é comum a criação da imagem do outro, que muitas vezes é falsa, e que também pode variar de acordo com o tempo e desejo/gosto do outro. Precisamos fugir das caricaturas na vida real. A obra de Almodóvar é madura pela não-dicotomia.

Se no nascimento não escolhemos os nomes, e eles podem ser homenagens a outros, a significados de todos os tipos, dado por nossos pais ou escolhidos por quem nos antecede na história, Benigno pode achar que faz a coisa certa, que é bom, quando está obsessivo. Pode se sentir inocente, sendo culpado. Marco pode acreditar em um amor que não existe. Lydia – como tantos hoje na vida real – não conseguir desacorrentar-se do amor passado. Há suspeita e induções no filme. Almodóvar não revela, solta pistas.

A narrativa de “Fale com Ela” é feita em ondas – como a nossa própria vida, entre altos e baixos (seja na esfera material de capital ou/e emocional). A dança, a música e o cinema mudo são escolhidos como mais elementos de arte nessa narrativa. Nos espetáculos Caffe Muller e Fogo se apresenta a bailarina e coreógrafa Pina Bausch, que dizia: “Não estou interessada em O desejo e o outro no “Fale com Ela” como as pessoas se movem, mas no que as movem.” No filme, a dança revela a dor silenciosa das mulheres. É um filme sobre mulheres (Ela), mas quase todo o tempo decidido por homens, inclusive do que fazer com seus corpos “na saúde ou na doença”. Algo que muitas vezes passam desapercebidas pela estrutura de poder que temos, histórica e social, a essa naturalização cultural imposta que temos.

A trilha sonora do compositor espanhol Alberto Iglesias é um equilíbrio a intensidade da trama. Composições como “María Santísima de Araceli”, “La Mesita de Noche”, “Alicia Vive” e “Raquel” são belíssimas, e há também música brasileira, essa conexão através da música latina – a bela voz de Elis, depois Caetano Veloso canta e participa – emociona Marco e Lydia. A própria toureira Lydia é interpreta por Rosario Flores, que na vida real tem uma carreira ainda maior de cantora, vencedora do Grammy Latino por duas vezes, inclusive naquele ano de 2002, somados a seis discos de ouro e disco de platina. Outro elemento usado é o filme mudo “Amante minguante”, que poderá ou não ser premonitório na trama.

“Fale com Ela”, além de vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original em 2003, deu a Almodóvar, a primeira indicação a um diretor espanhol por Melhor Direção no Oscar. O filme espanhol venceu ainda o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, o César de Melhor Filme Europeu, dois Baftas (de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Roteiro), o Prêmio Goya de Melhor Trilha Sonora Original, dentre outros.

(*) Lucas Muller é documentarista e graduando em Letras na UFF.