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Coluna

História e consciência pretas

20 novembro 2020 - 14h09

No dia 20 de novembro, assim que acordar, provavelmente abrirei as minhas redes sociais e me depararei com uma extensa quantidade de mensagens relacionadas ao dia da Consciência Negra. Dada a minha boa escolha, no geral, de amigos conscientes, empáticos e sensatos, tais mensagens serão de apoio, de vivência e de apreço à luta para que  essa consciência se dê, se construa ou se perpetue nas mentes diversas por aí. Eu própria, publicarei um poema,uma frase, um post, ou tudo isso. Eu própria escrevo esta crônica a respeito...Mas, o fato, lastimável, doloroso e inquietante, é que no dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, eu acordarei num país ainda racista.

A data está relacionada à morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, situado entre Alagoas e Pernambuco. A escolha do 20 de novembro aconteceu no contexto de declínio da Ditadura Militar (final da década de 1970, em diante) e de redemocratização do país. 

O enfraquecimento da ditadura deu força aos movimentos de oposição e aos movimentos sociais, como o movimento negro.

Zumbi foi morto em 1695, na referida data, por bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho. Atualmente, existe uma série de estudos que procuram reconstituir a biografia desse importante personagem que resistiu à escravidão no Brasil. O Quilombo era símbolo de luta e resistência contra a escravidão e uma referência à liberdade e autonomia de um povo que por mais de três séculos, vinha sendo violentado, arrancados à força de sua terra natal, a África, trazidos a outro continente para servir e produzir no nascente Brasil colonial. Foi nesse contexto hostil que nasceu o nosso país e é por isso que tudo aqui gerado, produzido, construído se deve às mãos negras dos africanos e seus descendentes.

Quando, no papel, a escravidão foi abolida, em 1888, nenhum direito foi garantido aos negros. Sem acesso à terra, a qualquer tipo de indenização ou reparo por tanto tempo de trabalho forçado, muitos permaneciam nas fazendas em que trabalhavam ou tinham como destino o trabalho pesado e informal. As condições subumanas não se extinguiram. O Brasil carrega uma história de 300 anos de escravidão. 

Dentre os países da América, o nosso foi o último a abolir a escravidão negra. Ficou enraizado no inconsciente coletivo da sociedade brasileira um pensamento que marginaliza as pessoas negras, as impede de se constituírem como cidadãs plenas. 
Uma pesquisa publicada em 2018, mostrou que 7 em cada brasileiro admite usar expressões preconceituosas, ainda que apenas 2 assumam-se racistas. É isso que denominamos racismo estrutural. 

É essa naturalização de ações, hábitos, situações, falas e pensamentos que já fazem parte da vida cotidiana do povo brasileiro, e que promovem, direta ou indiretamente, a segregação ou o preconceito racial. Um processo que atinge duramente e diariamente a população negra.

Possivelmente, esta crônica tenha se tornado um artigo, dado os seus parágrafos pautados majoritariamente em conteúdo e pesquisas históricos. De fato, é só pela História que se pode entender por que precisamos desse dia, por que precisamos de, em todos os outros dias, abraçar esta causa. 

E há muito mais sobre a vida, os feitos, as lutas, covardias e desumanidades e, sobretudo, sobre a resistência dos pretos no Brasil. Não, não basta acentuar o nosso possível não racismo, é preciso combatê-lo! Não basta não fazer parte do grupo que destila seu preconceito, é preciso extinguir o preconceito. 

Então é pela história, sim, acrescentando a ela sua própria consciência, empatia, e por que não? Amor. Amor ao próximo, e estou certa de que próximo a você há muitas pessoas pretas. 

Enxergue-as! Valorize o que dizem, o que vendem, o que escrevem, o que fazem, a profissão que ocupam! 

Não foi igual para elas estarem onde estão, foi mais difícil, foi árduo, e assim o é todo dia para se manterem. E se não estão num lugar digno da sociedade, ajude-as a estarem! 

Daí a necessidades de cotas e programas especiais a fim de tentar minimizar essa dívida histórica com este nosso povo, ou melhor, estes que são povo como nós! 

Poste suas mensagens de apoio à causa no dia 20 de novembro, mas, diariamente, mesmo sem ninguém ver ou saber, ame, dê espaço, empregue, sirva, ouça, leia, relacione-se,  considere estas pessoas e além: denuncie o preconceito racial sempre que o presenciar, sobretudo, observe-se! 

Abra mão de expressões, piadinhas e simbologias que fazem alusão à discriminação racial. Creio que é só assim que vamos conseguindo desestruturar o racismo. Não é uma luta só deles, se eles nos importam! 

Não seja racista. Sobretudo, seja  um antirracista.