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Coluna

Estiagem

19 agosto 2021 - 16h36

Há tempos não escrevo uma crônica. Tenho sorte de ainda poder fazê-lo neste espaço, ainda que possa ter sido, pelo meu próprio silêncio escrito, esquecida. Permitam-me lembrá-los da minha escrita, permitam-me ser lida de novo, permitam-me tentar explicar minha pseudo fuga. Não se foge de fato das palavras, não quando elas valsam, barulham, inquietam, angustiam e aliviam-se, constantemente, em si. Não se foge das palavras, não quando elas já se fizeram parte do que se é, ou se pensar ser, ou se está buscando conhecer. Ainda que elas não apareçam, ainda que o texto não exista, ainda que não sejam ditas...Elas nunca deixam de existir! Ficam dentro, movendo-se, crescendo, trocando lugares, trocando estruturas, refazendo-se, recriando-se, reexistindo, resistindo. Morrem para renascer. Encontram-se, desencontram-se e reencontram-se. Calam-se sim, por vezes, mas retornam, ainda mais “falantes”.

A poesia das minhas palavras nunca vai embora. Não de vez. Apenas se esconde, hora ou outra, por trás das coisas. Ah, as coisas! São tão grandes as coisas! O que acontece, caro leitor, é que por essas semanas em que não estive por aqui em palavras, me esforcei pouco para encontrar a poesia. As coisas foram maiores. Ou, talvez, tenha deixado os textos serem feitos só por aqui, por dentro, nestes meus eus que não se expressaram por meio da língua.

Mas o caso é que estou de volta, estou aqui, voltei. Não eu, propriamente, mas elas, as palavras. E não que tenham ido embora de fato. Passearam, voaram, desfragmentaram-se, porém retornaram, porque não há outo lugar bom de fato pra elas que não o texto, que não a  própria arte de dizê-las e escrevê-las, sobretudo no formato literário.

E sobre o que é este texto, o que aborda esta crônica? Sobre nada, afinal,  e sobre tudo, contudo. Sobre o processo da própria escrita e composição das palvras que tece o texto e enreda a vida, sobre o delicioso, porém inquietante e visceral, ato de escrever que ainda que seja calado, ofuscado, bloqueado ou adormecido por um tempo, sempre volta, porque é de palavras que vivemos, ainda que não apenas delas.

Ùma vez que a escrita se faça parte, nunca mais ela se esvai completamente. Por entre os dedos e pelos dedos, minhas palavras atracaram-se de novo e em forma, voltam a acontecer, estruturadas, extensivas, textuais. Desejo então, caro e possível leitor, que me aceites de volta. Eu não, as minhas palavras. O que será eu também.
Eu estiei por um tempo, mas volto a chover.