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Coluna

Era só um papel de pão

05 setembro 2020 - 13h54

Há dias em que a própria vida encena a “concertista”, e em nós muda a estação; Desfaz os nós dos anseios, guardados, enclausurados, ecoando todos os ‘nãos’. Retirando todos de cena, busca de brisa em brisa, uma flor para pousar, mira ao redor e nada encontra, senão, coração de criança que possa orquestrar. Faz congelar o instante, harmoniza o ambiente e tal sonora é a intenção. Lembrança é valsa cantiga, inocência reparada, elo de eternidade, concerto para uma vida, que baila em alusão.

O cenário era a cozinha. Fechados os olhos da face, fez a vida em desacorde, e o semblante, doce expressão. Tinha sonhos feito ‘notas combinadas’, retiradas de uma escala mãe. Palavras foram surgindo, os sons que diminuíam pra dar voz a emoção, olhou ao redor, nada tinha, nem caderno, nem caneta, que se fizesse batuta para reger a canção. Emudeceu o intento, acordes soavam em Lamento, pois se sentia menor. Só de imaginar a cena, contracenando com a realidade, tão distinta ecoando em dó.

O que tinha era bagagem, inocente referência de uma doce refeição; Olhos cerrados e o tempo, acelerado em contratempo, trouxe a memória do vento ao recordar a estação. Era o outono da infância. O café, doce em demasiado, fora colorido às claras, ao derramar de um leite puramente condensado; Adoçou também sua mente, emocionada com os olhos, agora postos ao chão. Ao recordar que faltava, qualquer elemento surpresa, que tornasse memorável os registros da infância, eis que surge aéreo, lançado, embolado, enfarelado, um simples papel de pão.

Valor, ninguém percebia, só os olhos da menina que se abriram feito uma flor; Era o encontro perfeito, lançado em rejeição, acolhido afetuosamente para os registros do amor, o simples papel de pão. Mesmo estando amassado, chamou sua atenção. Papel desprezado por todos, mas aos olhos da menina, viajante nas memórias, fez de cada ‘amasso’ uma onda, colocou seu barco pensamento, a viajar pelos intentos do seu nobre coração. Era só um papel de pão. Para muitos não valia nada. Guardava contidas migalhas que logo cairiam ao chão; Mas a menina tristonha, num salto argumentou que tal diferença faria não lançá-lo à lixeira, e logo a menina esperta, de pronto estendeu a mão. 

Eis o papel de pão, não seria lançado ao fundo, pois carregava no instante tamanha responsabilidade, servir de bandeja às letras extraídas de um coração. Era só um papel de pão! Pequena e inspirada menina, desamassava a folha, berço dos versos seus, e lamentar, quem sabe, incertezas quanto ao amanhã, que parecia de longe, distante dizer adeus. Mas ela não desistiu, pro quintal levou o papel; Seus olhos, fechou novamente, em silêncio voltou-se aos céus, em entrega e gratidão; Consagrando as singelas rimas que jorravam do coração, curvou-se e tocou na pedra, que substituiu a caneta e rasgou o papel de pão, deixando ali tatuado, no chão, solo sagrado, em momento de oração, quando clamando ao Pai, sondou o próprio interior, reconheceu ser pequena e temeu a responsabilidade que recebera do Criador; Ecoou sussurros ao vento, almejando uma explicação. Contemplou a pedra na mão, ao longe lançou o objeto que ferira o papel de pão.

Resposta assim sorrateira, que a alma ingênua pode entender: – Causa nobre é reger as letras, buscando a compreensão. Valorizamos o novo, que aos olhos humanos faz brilhar, quando a essência da vida, por vezes está na ferida, que a própria vida causou. Um objeto quebrado carrega nas rachaduras as histórias e as memórias de quem o sentenciou. 

Pequeninas mãos vazias, contando seguiu seus dias, de outrora, aos atuais, resgatando sentimentos que revelam a essência dos seus próprios ancestrais; Valorizando a escrita, regendo concerto solo do seu próprio coração.

Seguiu a evolução do tempo, coautora de crônicas que revelam a vida real, reescreveu os capítulos presenteados ao tempo, que generosamente, alimenta seu ideal. Absorveu cada ‘sim’, sem desprezar os seus ‘nãos’, pois, sabiamente entendeu que mais valem as verdades protegidas com intenção. Ao libertar a escrita, fez da memória a tinta, tatuando o coração, que ecoou sentimento, harmonizando o tempo em sonora percepção. 

Doces dias de outrora, quando, precocemente, reconheceu sua missão, de registrar sentimentos, como remédio armazenado para os dias de solidão, causada pela lembrança dos registros da infância, amassados e assim lançados, num simples papel de pão.