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Coluna

E agora?

28 abril 2021 - 15h24


Aviso leitora, leitor, esta crônica já começa errada. Eu não queria de fato ter usado a frase senso-comum, mas deveras inquietante do título. Ela deveria ter sido ‘E o agora?’ Mas, e agora, talvez tenha te feito vir aqui mais rápido ler este texto. Estamos tão aflitos por respostas e um escritor, ao menos alguns, quando iniciam seus escritos com perguntas, ensaiam respondê-las. Não eu. Minha expressão adverbial de tempo quer ser um significativo e denso substantivo que incide em repetidas perguntas. Eu quero mesmo é falar do agora, e sem responder algo sobre este urgente tempo. Desculpem-me, não tinha a pretensão de ludibriá-los, mas é que sou poeta, mesmo estando cronista neste espaço, e “o poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor /a dor que deveras sente”. O agora me dói, as perguntas se acumulam, as dúvidas suplicam partilhas, então, permita-me, caro leitor, cara leitora: E o agora?

O que você faz do presente, além de sentir falta do ontem e acumular esperanças para o amanhã? Qual é o gosto do que você gosta hoje? O que, neste dia em que me lê, foi o teu agora? Não, não! Estou aqui, equivocadamente, invocando o passado e difamando de novo o instante. Uma segunda chance: o que é o teu agora? De que forma você vive o hoje, a hora, o momento, a história acontecendo você nesta hora? Nada de agora em diante, porque isso é também futuro. Não que não seja delicioso pensar em futuros, visto que esta palavra dialoga com sonhos e esperanças, tudo de que estamos tão necessitados agora... Mas se a ocasião não se  faz, não se vive, não se degusta, como pensar em amanhã? O que constrói o amanhã, afinal, se não o hoje?

Eu não queria tocar neste assunto num momento tão delicado, mas o fato é que já disseram grande poetas, pensadores, compositores, filósofos: Amanhã é incerteza. Pode ser semente, porém, não é certeza de fruto, de flores. Eu posso provar citando Carpinejar: Depois é  nunca; ou Renato Russo: É preciso amar as pessoas/ Como se não houvesse amanhã/ Por que se você parar pra pensar/Na verdade não há; ou, ainda, Jonathan Swift: São poucos os que vivem o presente; a maioria aguarda para viver mais tarde; mesmo na aflição e na incerteza é o agora que Drummond conclama: E agora, José?/ A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou,/ e agora, José?/  e agora, você? E, ainda, Fernando Pessoa: Podemos vender nosso tempo, mas não podemos comprá-lo de volta. Lembrei destes, por enquanto, porque estou tentando viver só o presente nesse texto e a minha memória me trai, ou acredita em minhas palavras e me faz ter só, por agora, o já.
Sim, queremos o tão emblemático futuro mellhor, sobretudo após o passado que nos acometeu, insistindo-se continuamente presente. Contudo, enquanto estamos indo, permitamo-nos acontecer:  Eu canto porque o instante existe... e  Se em um instante se nasce e um instante se morre, um instante é o bastante pra vida inteira, nos inpira Cecília Meireles em dois momentos, ou em dois agoras, diferentes da sua criação. Dá uma olhadinha aí no seu quando e se responda o que tem pro dia, o que pode melhorar, só por agora, o  teu instante. Depois, num futuro-hoje, me conta?

E agora, cara leitora, caro leitor, e o Agora?