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Coluna

As cartas, a poesia e o que levamos

07 novembro 2022 - 11h44

A poesia é provavelmente a mãe de toda literatura. Sua oralidade perpassou séculos, continentes, gerações até as primeiras palavras a serem escritas; dela ainda nasceu o teatro e demais gêneros literários. Paul Claudel dizia que “somente o poeta tem o segredo daquele instante sagrado em que a picada essencial vem repentinamente introduzir, através de um mundo suspenso em nós, mundo de lembranças, de intenções e de pensamentos, a solicitação de uma forma.” A forma talvez mais bela que conseguimos nos expressar por palavras. 

Na terça-feira, ao lado de minha namorada, revi um dos filmes que tanto me marcaram pela palavra, o filme italiano “Il Postino” (O carteiro e o poeta, 1994). A história é baseada no romance “O carteiro de Neruda”, de Antonio Skármeta. Exilado por perseguição política e mandado de prisão, o poeta chileno Pablo Neruda e a cantora Matilde Urrutia passam seis meses na Ilha de Capri, entre 1951 e 1952; neste ano Neruda publica “Os Versos do Capitão”. 

Na ficção, romance e filme, Neruda (Philippe Noiret) e Urrutia (Anna Bonaiuto) ficarão numa casa bem no alto da ilha. O poeta precisará de alguém para trazer e levar sua correspondência. O correio local contratará nesse período de exílio do poeta um carteiro temporário, que saiba ler e que tenha uma bicicleta. A vaga de emprego será preenchida por Mario Ruoppolo, filho de pescador, mas que não gosta da profissão do pai, e antepassados.

Pouco a pouco, a cada ida e vinda de cartas, a amizade entre Pablo e Mario nasce, entre o poeta e o carteiro, os condutores de palavras. Há uma diferença entre filmes espetaculares (feitos para o espetáculo, para o entretenimento) e filmes bonitos, que tocam fundo na alma. “O carteiro e o poeta” é construído nesse sentido. A interpretação do ator Massimo Troisi, que interpreta Mario, essa simplicidade do personagem causa tamanha empatia, os diálogos entre os dois, que cresce a intimidade gradual nesse pouco tempo conduzida pela poesia, pela descoberta das palavras. Metáforas, é linda. Em uma cena do filme, Mario pergunta: “Como uma pessoa vira poeta?”, ao que Neruda, de forma simples, responde: “Tente caminhar pela costa até a baía e olhar a sua volta.”

A vida de Mario começa a expandir, a cultura começa a permear o pensamento. A paixão de Mario por Beatrice Russo (Maria Grazia Cucinotta) será a impulsionadora na tentativa do carteiro conquistar seu amor (primeiro e único) e se tornar poeta. 

O filme retrata também a importância da poesia, da palavra, no posicionamento político, no combate às injustiças socias pela arte, de não ser indiferente ao meio, nessa luta secular de classes. 

Algo bem interessante de “Il Postino” (“O carteiro e o poeta”) está nos bastidores do filme. O grande idealizador dessa obra-prima do cinema foi o próprio ator italiano Massimo Troisi, que também era poeta. Após ler o romance de Skármeta, Troisi fica fascinado e quer gravar o filme, que julga ser o da sua vida. Escolhe o diretor Michael Radford, escolhem juntos o elenco e gravam durante onze semanas na Itália.

Esse será o último filme do ator e idealizador. Troisi desmaia durante algumas cenas e em outras ajuda na direção do filme. Diagnosticado com cardiopatia desde 1972, e operado em 1976, Troisi é alertado pelos médicos que precisa de outra cirurgia, mas tem medo de não resistir a ela e não conseguir atuar e codirigir seu “O carteiro e o poeta”. Troisi falece doze horas após gravar sua última cena no filme de sua vida, aos 41 anos de idade.

“O carteiro e o poeta” é indicado a cinco Oscar: melhor filme, melhor diretor, melhor trilha sonora original, roteiro adaptado e melhor ator para Massimo Troisi. Vence na categoria Melhor Trilha Sonora Original para Luis Bacalov. Troisi ainda é indicado ao prêmio de melhor ator no BAFTA; o filme vence 3 prêmios: melhor filme estrangeiro, melhor direção e trilha sonora.