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Coluna

“A Onda” e a derrubada de mitos

11 junho 2022 - 08h45

“O fascismo é uma religião. O século XX será conhecido como o século do fascismo.” Essa frase é atribuída ao ditador italiano Benito Mussolini.

Em 2008 – há 14 anos, relativo a três eleições presidências no Brasil –, um filme alemão foi fenômeno no mundo e gerou muita reflexão, um filme atemporal, o filme “Die Welle” (“A Onda”), do diretor Dennis Gansel.

O filme é inspirado em uma história real ocorrida nos Estados Unidos em 1967. Ron Jones, professor de história na Cubberley High School, em Palo Alto, Califórnia, a fim de responder aos questionamentos de seus alunos sobre como o povo alemão teria sido capaz de apoiar as atrocidades nazistas, decidiu realizar um experimento sociológico intitulado de ‘A Terceira Onda’. O projeto levou uma semana.

No filme de Gansel, o tempo é igual. O professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel), com camisa da Ramones, jaqueta de couro, calça jeans (elementos), questiona sua diretora sobre a escolha de outro professor, Wieland (terno e gravata), para dar aula sobre seu tema favorito, anarquia, no projeto semanal do colégio. Resta agora a Rainer o projeto de autocracia (tipo de governo em que uma pessoa ou um grupo de pessoas detém o poder completo sobre uma nação). Surge o questionamento entre Rainer e seus alunos: “Na Alemanha atual seria possível outra ditadura?”

De forma gradual e natural nesta sala de aula, na escola, e depois pela cidade: uma ideia sedutora de uma “alternativa” de poder, de pertencimento, um nome, um líder, um uniforme, o logotipo, ações em unidade e disciplina vão acontecendo; um movimento antissistêmico: “A Onda”.

Pouco a pouco os conflitos vão aparecendo entre os personagens (professores, alunos, famílias, cidade). A unidade apaga a liberdade individual e faz desse movimento proteção a seus membros e hostilidade a outros. Agora todos os camisas brancas serão hostis a qualquer outro tom (vermelho, preto, cinza...). Em uma das cenas, Tim (Frederick Lau), de camisa branca, queima todas suas roupas de marca – Adidas, Puma, Fila e Nike; “queima o sistema”. Tim fará do movimento sua religião. “A Onda é tudo o que eu tenho!”, diz numa das cenas marcantes do filme. Tim identifica Wenger como um pai, como um condutor.

O jornal do colégio (imprensa) é questionado e censurados seus exemplares. A rivalidade esportiva se aflora, o ódio já é o combustível. O dualismo (bem e mal) está presente: “Qualquer um que se opor será levado pela “A Onda”, “Vamos passar por cima da cidade como uma onda!”. “A Onda” aumenta ainda mais e pode desencadear um efeito devastador através dessa juventude, que é agora descrente na democracia e odeia toda classe política (sem distinção de indivíduos ou partidos). “Os políticos [todos] são apenas marionetes da economia”, está presente no discurso do professor Rainer Wenger, líder do movimento. Wenger pouco a pouco é seduzido por sua própria posição de comando. Algo que sua esposa, Anke Wenger (Christiane Paul), acusa/recusa. Karo (Jennifer Ulrich) fará oposição ao seu namorado, Marco (Max “A Onda” e a derrubada de mitos Riemelt), e Lisa (Cristina do Rego), Sinan (Elyas M’Barek) e tantos outros escolherão um lado.

Tecnicamente, um dos pontos altos do filme é a montagem de Ueli Christen, sofisticada; o filme já começa num ritmo frenético, cortes secos, rápidos, e o desenvolvimento vai de acordo com a tensão do roteiro de Peter Thorwarth e do próprio Gansel. Pelo roteiro e mão do diretor percebe-se ainda o tempo certo dado a cada personagem na trama. “A Onda” flui, revolta, acalma. A fluidez do filme é impressionante. Temos empatia, identificação, curiosidade pelos personagens, mesmo os secundários.

“A Onda” é um filme urgente – independente de século, é um filme realista, forte, clareia nossa consciência sociopolítica. Nos mostra que o fascismo não está relacionado ao tempo, mas na essência de poder, que surge dentro do homem movido por carências, vaidade, frustrações; que surge em sistemas econômicos em queda ou colapsados. A falta de perspectiva futura gera o fascismo. Mussolini também dizia sobre seu “sistema antissistêmico”: “Criamos o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. O nosso mito é a nação, o nosso mito é a grandeza da nação.” Mussolini estava errado. Mitos existem para serem destruídos, contestados pela Ciência, pela História, pela Filosofia, pela Arte, e a grandeza de uma nação não se dá por um mito, sistema e seus espectros, mas por uma busca por justiça social, pela construção dessa busca, por empatia ao próximo, principalmente a quem é diferente de nós. O dualismo não existe.

(*) Lucas Muller é documentarista e graduando em Letras na UFF.