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Coluna

A “Nossa” Vida dos Outros

09 maio 2022 - 11h14

Sua escrita seria capaz de corroer sistemas opressivos? Sua música ou arte aqueceriam almas frias? O filme alemão “A Vida dos Outros” (Das Leben der Anderen, 2006), do diretor Florian Henckel von Donnersmarck, é um dos raríssimos filmes no mundo que conseguem colocar na mesma balança: política e arte; a força – às vezes antagônica – das duas. O filme se passa na Alemanha Oriental (RDA, República Democrática Alemã), no ano de 1984 (cinco antes da queda do Muro de Berlim).

No enredo, o agente Gerd Wiesler, da polícia secreta Stasi, será o encarregado de espionar o dramaturgo Georg Dreyman, principal autor alemão favorável ao sistema ditador soviético. O roteiro de “A Vida dos Outros” foca em três personagens principais, além de Wiesler (Ulrich Mühe) e Dreyman (Sebastian Koch) em Christa-Maria Sieland, companheira e amante de Dreyman, interpretada pela atriz Martina Gedeck. Os três – de atuações perfeitas e tocantes – serão levados a dilemas pessoais diferentes: a anulação e corrosão de caráter pela manutenção do sistema, a rebelar-se pela arte; e a quem a arte possuí ela transforma?

Em uma das cenas – mais marcantes para mim – o agente Wiesler da Stasi, que espiona a vida dos outros, possuí o livro de Dreyman, um livro amarelo, apenas escrito o nome do autor: Brecht. “Um dia de setembro sob o luar melancólico. No silêncio sob uma ameixeira eu segurei meu amor lívido e silente em meus braços como um sonho nítido e fascinante...”. Esse poema, “Recordação de Marie A.” será o divisor da trama, da maneira mais sutil, quase imperceptível. Um poema que como água limpa vem lentamente e, quando bate no muro do coração, se transforma em tormenta.

Graças a esse pequeno trecho de “A Vida dos Outros”, conheci o dramaturgo e poeta Bertolt Brecht, que após pesquisas e leituras viria a ser um dos escritores favoritos da minha vida; o que passou, sua luta e sua escrita simples e profunda. Além desse poema, outros como “Nossos Inimigos Dizem”, “Expulso por um Bom Motivo”, “Aos que Virão Depois de Nós”, “A Cruzada das Crianças” e “Contra a Sedução”, dizem um pouco do autor/pensador alemão, citado em “A Vida dos Outros”.

A pesquisa e criação do filme de Florian Henckel são primorosas. O roteiro do próprio diretor estreante – na época com 33 anos – contou com a ajuda na construção dos diálogos do ator Ulrich Mühe, que viveu na Alemanha Oriental, para que ficassem autênticos/regional. O ator Sebastian Koch, mesmo não sabendo tocar piano, se propôs a aprender. Teve aulas diárias por seis semanas e toca durante o filme a música original “Die Sonate vom Guten Menschen” (A Sonata da Bom Homem), de Gabriel Yared, que assina a trilha sonora do longa, junto a Stéphane Moucha.

Essa cena, em que Dreyman toca a sonata, é uma das cenas chaves do enredo. Dreyman, após saber do suicídio do amigo, pergunta à companheira Christa-Maria: “Sabe o que Lênin disse sobre a Apassionata de Beethoven? Se eu continuar ouvindo, não levarei a cabo a Revolução.” e completa: “Será que alguém que ouve essa música, que a ouve de verdade, pode ser uma má pessoa?”. Dreyman agora terá que sair de cima do muro.

Além do enredo bem amarrado, a questão técnica do filme alemão é primorosa: a câmera faz movimentos sutis/suaves, sem cortes abruptos. A fotografia mantém seus tons escuros de verde, cinza e amarelo (mesma paleta durante toda obra). Todos os objetos (aparelhos e microfones de escuta, gravadores, fones de ouvido, etc.) são autênticos, da mesma época e origem, conseguidos em museus e com colecionadores.

A “A Vida dos Outros” venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007, último filme da Alemanha a vencer essa categoria. Foi indicado ainda ao Globo de Ouro do mesmo ano e, em 2006, venceu no Prêmio do Cinema Europeu: melhor filme, melhor ator (para Ulrich Mühe) e melhor roteiro, além de sete “lolas” no Prêmio do Cinema Alemão: melhor filme, melhor direção, melhor ator e ator coadjuvante para Ulrich Mühe, roteiro, fotografia, melhor designer de produção. * Documentarista e graduando em Letras na UFF.

(*) Lucas Muller é documentarista e graduando em Letras na UFF.