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Coluna

A Música de “Todas as manhãs do mundo”

11 fevereiro 2022 - 19h08

Não existe sensação melhor do que, ao terminar de assistir um filme, aquela contemplação silenciosa sobre a obra e o que ela reflete em nós, às vezes por breve tempo, outros em pequenos intervalos por dias ou anos. 

O cineasta francês Alain Corneau em toda sua carreira dirigiu 16 longas-metragens, e foi antes assistente em outros treze, incluindo de diretores como Costa-Gavras, Marcel Camus e Jorge Semprún. Seu nono filme, “Todas As Manhãs do Mundo” (Tous les Matins du Monde), dirigiu próximo aos seus 50 anos, em 1991. Ele mesmo dizia que “uma pessoa é uma massa de carne e cérebro que constitui uma porta aberta”, e era necessário abrir muitas portas para deixar entrar influências, sensações, percepções de mundo, de uma sociedade de 300 anos antes de seu nascimento, do período barroco, do reinado do Rei Sol Luís XIV. 

Alain baseou a história de “Todas As Manhãs do Mundo” no livro homônimo de Pascal Quignard, que foi chamado para roteirizar seu romance para película; e ambos aliados a talentosa direção musical de Jordi Savall, fizeram algo surpreendente naquele ano. A obra se baseia na vida (ou fragmentos dela) de dois compositores e virtuosos instrumentistas de viola de gamba do século XVII, o mestre Monsieur de Sainte-Colombe e Marin Marais, músico da Corte Real de Versalhes. 

A narrativa se dá pelas memórias de Marins diante de sua vivência, antes da corte, com o mestre Sainte-Colombe e suas filhas Madeleine e Toinette, na região bucólica de Creuse, com seus campos, lagos e casarões medievais. Monsieur de Sainte-Colombe entre a imersão na composição de sua viola de gambá e dedicação às filhas, vive um luto interminável pela perda de seu grande amor: “Ao despertar, lembrou a ‘Tumba dos Lamentos’, que compôs quando sua esposa o deixou para abraçar a morte. Seus dedos sozinhos se colocaram nas cordas. Ele teve outras visitações. Meu professor, temendo que ele estivesse louco, pensou: Se isso fosse loucura, isso o fazia feliz. Se isso fosse verdade, isso era um milagre. O amor por sua esposa ultrapassou o dele próprio, por isto o atingiu de tão longe. E não contou a ninguém sobre as visões. Sentiu que sua ira se afastava, e em seu interior, sentia que algo tinha culminado”, narra Marais. 

A música conduz à sete cordas essa obra-prima, passa pela fotografia onde predominam a sombra, a luz, e a contraluz, e seus tons verdes e vermelho escuro, âmbar, e outros tons terrosos; cada enquadramento é um quadro barroco. O figurino é impecável pela direção de arte, e a atuação como uma orquestra de câmara impressiona! Jean-Pierre Marielle, Gérard Depardieu e Anne Brochet dão vida no tom exato, perfeito, a Sainte-Colombe, Marais e Madeleine. São três atuações principais emocionantes, somados a Guillaume Depardieu (filho de Gérard), Caroline Sihol e Carole Richert no elenco. Se passarão anos de esperança e desesperança em Creuse, luto e recomeços. 

Em um trecho bem marcante Sainte-Colombe diz a Marais [no fundo em espelho, em reflexo, diz a todos os músicos de todas as eras]: “Seu coração pode sentir? Pode reconhecer sons que não sejam para dançar ou para agradar aos ouvidos do rei?”. Quantos de nossos corações reconhecem a essência da música, sua contemplação, sua profundidade, “o que as palavras não podem dizer”?

Tamanho capricho, desde a pesquisa, produção, e finalização do filme levaram mais de 2 milhões de franceses ao Cinema na época, e em 1992, “Todas As Manhãs do Mundo” (Tous les Matins du Monde) foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, ao Urso de Ouro em Berlim, e venceu sete prêmios César: melhor filme, direção, fotografia, trilha sonora, figurino, som e melhor atuação coadjuvante para Anne Brochet.