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Coluna

A memória afetiva e a criatividade em Amélie Poulain

04 abril 2022 - 14h48

Há cerca de vinte anos, o filme francês “O fabuloso destino de Amélie Poulain” (Le fabuleux destin dAmélíe Poulain, 2001) enchia os cinemas do mundo inteiro, mais de 35 milhões de espectadores, e se tornava um fenômeno cult com sua narrativa imaginativa, suas cores quentes e saturadas, o encaixe perfeito de Audrey Tautou no papel da protagonista Amélie Poulain, a trilha de piano leve de Yann Tiersen e cada detalhe dado pelo diretor Jean-Pierre Jeunet.

Na construção da história, “O fabuloso destino de Amélie Poulain” não traz personagens caricatos, artificiais ou “perfeitos”, não existem vilões e heróis, todos seus personagens são extremamente humanos, com mais erros do que acertos, mais ilusões do que certezas, cada um tem sua mania – muitas vezes sistemática, seu modo próprio de agir, de ver e sentir o mundo. Como dizia Deleuze: “O verdadeiro charme das pessoas reside nos seus traços de loucura”. O filme capta essa essência, esse charme, e acerta como poucos nesta construção dos personagens, sejam principais como Amélie, dentro da sala de Cinema: “Eu gosto de olhar para trás para os rostos das pessoas no escuro. Eu gosto de perceber detalhes que ninguém mais vê.” ou secundários - como um andarilho todo arrumado com seu cão na estação de trem, recusando uma esmola: “Não, obrigado, nunca trabalho aos domingos”; uma frase inusitada, mas real, nessa centelha de loucura que temos dentro de nós.

Outro ponto bem único e bem trabalhado em toda história é a memória afetiva. Objetos simples como uma caixinha de brinquedos da infância, uma foto, uma carta, um quadro, um filme... ou um inusitado anão de jardim, tudo pode trazer memórias afetivas. O filme é repleto dessa simbologia em diferentes momentos e que aparece em todos os principais personagens, ou seja, se torna uma característica de personalidade.

“Uma coisa que toca a alma de todos é que seja uma personagem tão generosa, que realiza atos de generosidade sem pedir nada em troca. Amélie fala de coisas positivas, de pequenos prazeres da vida, como colocar a mão em um saco de sementes. É uma mistura de muitas coisas diferentes.” disse o diretor Jean-Pierre.

Em “O fabuloso destino de Amélie Poulain” toda essa arquitetura dos personagens alinhada a criatividade da protagonista levará a linha narrativa do filme. Desde pequena Amélie Poulain “se refugia em um mundo inventado por ela.” e “como Dom Quixote, Amélie decidiu lutar contra a fábrica A memória afetiva e a criatividade em Amélie Poulain incansável de todas as misérias humanas.” Amélie tentará agora adulta – e sem ser vista - ajudar pessoas ao seu redor, modificando pequenas coisas nesse cotidiano, dando pequenos empurrões para essas vidas (perdidas, humanas) se tornarem um pouco melhor.

Aos poucos, nesse enredo Amélie vai despertando também o desejo de viver um amor, uma paixão; a medida que se envolve em outras vidas, isso reflete na sua própria vida, e talvez ela também precise de um pequeno empurrãozinho.

“O fabuloso destino de Amélie Poulain” é um filme bem pensado/ estruturado, coletivo, de memória, afetuoso (reflete em nós, na nossa vida). Hoje é cada vez mais difícil ver filmes que sejam belos, que tenham essa essência além do espetáculo.

Esse bonito e delicado filme venceu dois prêmios BAFTA, dentre nove indicações; venceu Melhor Roteiro Original e Melhor Desenho de Produção; no César (prêmio mais importante do cinema francês) de 2001 recebeu treze indicações e foi eleito o melhor filme, direção para Jean-Pierre Jeunet, música para Yann Tiersen e cenário. Foi ainda indicado a cinco categorias do Oscar, e ainda ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

* Lucas Müller é cineasta e produtor cultural.