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Coluna

A aluna que tanto ensina

20 novembro 2020 - 14h02

O tempo é uma ponte a unir pessoas, unificando valores. O tempo é impaciente e voa, mas muito nos ensina.

Em 2018 recebi um convite emocionante. Estava em um evento literário no Charitas, Museu de Cabo Frio, e havia acabado de declamar uma poesia. À minha frente, um pedido, quase um clamor da alma: 

– Você poderia ensinar piano para a minha mãe? Sorrindo, passei meu contato. Pouco tempo depois, demos início a um tempo memorável. 

Dona Dina, italiana. Personalidade forte! Tardes memoráveis solidificando a certeza de que trabalho difere de missão. 

O pedido foi para que eu a ensinasse, mas o que ela talvez não saiba é que muito me ensinou.

A cada aula, um concerto. As memórias das escalas diversificando melodias peculiares, que suplantavam aos instantes considerados, e classificados por aulas. Cada peça traduzia uma época, uma memória, alguém. Lágrimas escorriam dos olhos dela; lágrimas escorriam dos meus.

Certa vez pediu-me para jogar xadrez. Confesso, ela não aceita perder. Fica brava. Jogávamos e víamos os laços de respeito, carinho, crescerem!

Não demorou muito, e ela soube do meu amor por seu país. Soube o quanto respeito  sua cultura, e admiro o valor que dedicam à família. Logo contou-me sua história. 

Após as aulas de piano, quando não jogávamos xadrez, sentávamos para compartilhar leitura, e claro, não faltava aquele café! Líamos poesias... Muitas poesias. Minhas, dela. Eu até arriscava a leitura em textos italianos. Gentilmente sua filha corrigia meus erros de pronúncia. Recíproca paciência!

Certa tarde ela declamou um poema que me emocionou tanto... Passou um filme em minha memória. Me fez recordar meu primeiro poema, quando, aos 11 anos, apenas as paredes acolhiam minha voz. Precisava retribuir tamanha gentileza.

A permissão concedida de que eu conhecesse o outro lado, a doçura, a história, as marcas tatuadas na alma, percebidas nas entrelinhas. 
Foi aí que decidi presenteá-la com a posse na nossa Academia de Letras, ALACAF. Mais que uma vida, um livro com coração. Merece tornar-se memorável. 

Em ano de pandemia, atípico, fomos distanciadas,  mas me emociona cada dia que sua filha, Gio, me envia uma mensagem:

– Mamãe perguntou por você. 

– Mamãe não sai da poltrona. Ela pergunta: “Quando a Viviane virá?”.

– Mamãe não quer mais tocar piano, diz que esqueceu! Também não joga mais xadrez!

– Você pode fazer uma chamada de vídeo com a mamãe? Ela acordou perguntando por você!

Fato, ela não toca mais. Rendeu-se à pausa na partitura da sua própria vida, mas não me esqueceu.

Sabe, querido leitor, o tempo é impaciente e não retrocede. Sejamos condutores de amor, recíprocos ao mínimo sinal de precisão. 

Hoje D. Dina ocupa uma cadeira na nossa Academia de Letras. Italiana a versar em solo brasileiro. Merece meus instantes e reciprocidade. Merece carinho e respeito. Merece minha gratidão por cada aula concerto e por cada tarde de particular sarau.
Afetuoso abraço.