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CULTURA

Documentário sobre os quilombos da Região dos Lagos estreia neste sábado (11) em Búzios

Produção começou a ser pesquisada em 2018, levou três anos para ser concluída e reúne histórias de comunidades de Cabo Frio, Araruama, São Pedro da Aldeia e Búzios

10 julho 2026 - 12h25Por Redação

As histórias dos 12 quilombos da Região dos Lagos vão ganhar as telas buzianas neste sábado (11), com a estreia do documentário "Os Doze Quilombos – Ancestralidade, Memória e Reparação". A exibição será das 16h às 18h, na sede da Rede Observação (Avenida 12 de Novembro, 12.740, Baía Formosa), e vai reunir moradores das comunidades quilombolas do bairro e também do Prodígio e Sobara (Araruama). A produção é resultado de uma pesquisa iniciada em 2018 pelo escritor Pierre de Cristo, e fruto de três anos de gravações em comunidades de Cabo Frio, Araruama, São Pedro da Aldeia e Búzios.

Em conversa com a Folha, Pierre contou que a maior inspiração para desenvolver o projeto foi ver a distância social entre as comunidades quilombolas e a região central das cidades, além de ver e ouvir as histórias dessas famílias que ainda vivem um abismo educacional, de saúde e de mobilidade urbana. 

– São histórias de superação, de muita luta no campo por direitos básicos, por sobrevivência que vem de séculos. Saber que até 2024 o Núcleo Zebina, em Baía Formosa, ainda não tinha luz elétrica nem água potável é assustador. Então essa foi a minha maior inspiração, ser um instrumento de fomento às comunidades, sendo eles protagonistas da própria história - revelou.

Sobre o processo de produção do documentário, Pierre conta que tudo começou há cerca de oito anos, quando resolveu mapear as comunidades quilombolas existentes na região. Foi durante esse levantamento que o pesquisador entendeu que não existiam apenas as comunidades quilombolas que viviam no território de Cabo Frio.

– Existiam outras comunidades, que ficaram em outros municípios através do processo de emancipação. Mas elas se interligavam, sendo todas oriundas da mesma fazenda, a Campos Novos (em Tamoios, distrito de Cabo Frio). Então comecei a fazer o levantamento geográfico destas comunidades em toda Região dos Lagos, e nasceu o sonho de um dia transformar isso em um livro, ou em um audiovisual, para deixar para as futuras gerações. E esse sonho começou a virar realidade em 2023, quando convidei a fotógrafa e jornalista Thammy Carvalho para dividir o projeto comigo. Em 2024 ela assumiu a produção executiva, submeteu a pesquisa ao Edital Paulo Gustavo, e conseguimos ser classificados - contou Pierre, lembrando que foram três anos de gravações, problemas técnicos e adiamentos devido à imprevisibilidade do tempo. 

A distância territorial entre as 12 comunidades quilombolas também foi uma questão que precisou ser superada através de uma logística calculada para cada gravação. “Foram três anos com algumas pausas necessárias, principalmente para readequação do projeto, agenda dos personagens e muitas das vezes pelo tempo chuvoso: em determinados territórios você não consegue chegar porque a estrada é de barro, e isso deixava esses territórios isolados", explicou Pierre. Mas nada atrapalhou mais a produção do documentário do que a questão financeira.

– Não havia possibilidade de tirar do papel um projeto deste tamanho, com toda sua complexidade territorial, sem verba. A produção envolvia combustível para deslocamento, alimentação da equipe e outros gastos para manter tudo funcionando. Começamos a gravar sem verba prevista porque entendemos que era importante registrar os mais velhos de cada comunidade para que a história fosse contada por eles - lembrou. 

Pierre também contou com uma motivação extra para superar todos os desafios e dificuldades que surgiram ao longo do projeto: o combustível, segundo ele, foi o fato do documentário representar toda uma cadeia ancestral.

– Essa é a primeira produção que engloba todas as comunidades quilombolas da Região dos Lagos. E Cabo Frio é considerada a capital quilombola do Estado do Rio de Janeiro, porque a cidade possui seis quilombos. Mostrar essas comunidades, fazer o público entender que esses remanescentes estão aqui pertinho da gente, produzindo, trazendo suas culturas, mostrando seus trabalhos, é muito importante. Temos que dar voz a essas pessoas que, para muitos, não existem na geografia da região. Preservar essas histórias é dar continuidade à ancestralidade deste povo, que remanesce de processo doloroso de escravização dos seus ancestrais. E também mostrar que através da educação muitos já estão tendo a possibilidade de mudança de vida e mobilidade social - pontuou.

A exibição do documentário em Búzios, neste fim de semana, faz parte do cronograma oficial de lançamento do projeto, que teve início no último dia 7 no Teatro Municipal de Araruama. A agenda de exibições continua no próximo 16, das 13h30 às 15h30, no Cine São Pedro da Aldeia (Rua Francisco dos Santos Silva, s/n - Centro), e dia 24, das 18h30 às 20h, na sede do Coletivo Cultural Olhar da Perifa (Estrada Velha de Búzios, nº 01, Jardim Esperança, Cabo Frio).

A equipe de produção de “Os Doze Quilombos” é composta por 99% de pessoas negras. Pierre assina todo o trabalho de pesquisa do documentário. Além da produção executiva, Thammy Carvalho também é responsável pelo roteiro e direção. Edição e imagens são assinadas por Solamon Quigley. 

– O projeto é de classificação livre, e isso foi intencional quando a Thammy criou um novo roteiro. Antes ele seria pautado em apenas ouvir a história dos Griot (os mais velhos). Mas ela trouxe um novo recorte sobre questões educacionais, por exemplo, fazendo com que crianças possam se espelhar nas falas daqueles que venceram através da educação. É um documentário que abrange vários públicos. Nosso sonho é poder levar esse projeto para as escolas municipais onde esses quilombos existem, para que os alunos tenham conhecimento dessa parte da história regional, e entendam que essas comunidades fazem parte da história e construção do que hoje chamamos Região dos Lagos - defendeu Pierre.

Também foram feitas parcerias com coletivos culturais da região como o Olhar da Perifa que, segundo o pesquisador, “contou com alunos fazendo a cobertura dos bastidores e aprendendo na prática como se faz produção audiovisual, tornando-os profissionais iniciantes como fotógrafo still, auxiliar de produção entre outras funções”. 

– Fizemos parceria com Coletivo Vadeia Aldeia, com a cantora Mayla Árvore e com a gravadora Around, que nos apoiou na trilha sonora autoral do filme, que ficou incrível. Tivemos, ainda, o apoio financeiro da Living Papers, empresa com sede na Alemanha, e gestada por uma mulher negra, que é a brasileira Jane Sacco, e que compreendeu a importância do fomento nas produções audiovisuais brasileiras. Mas o apoio mais importante veio das comunidades quilombolas que abriram as portas. Toda gratidão aos aos quilombos Sobara e Prodígio (Araruama), Caveira (São Pedro da Aldeia), Botafogo, Fazenda Espírito Santo, São Jacinto, Maria Romana, Maria Joaquina e Preto Forro (Cabo Frio), Baía Formosa e Rasa (Armação dos Búzios) - concluiu Pierre de Cristo.