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Naquela noite, em Niterói, Julia Mestre me mostrou o que era o sublime

27 julho 2026 - 17h34

Eu já sabia, por uma confissão da própria Julia Mestre à Rolling Stone, que ela era tímida — e bastaram alguns minutos de sua presença no palco para eu constatar, através de seus olhos, esse traço. Senhoras e senhores, os olhos nunca escondem a verdade. A boca pode permanecer calada, mas as janelas da alma estão escancaradas ao mundo e nos desvelam sem pudor. Naquela noite de 17 de julho, em Niterói, vi nos olhos de Julia o brilho de uma moça tímida e, ao mesmo tempo, profundamente sedenta pela vida.

Possivelmente alguém estranhará essa afirmação. Como conciliar tamanha timidez com um show tão intenso? A resposta está naquilo que nos faz humanos: a contradição, a ambiguidade. Graças a Deus não somos uma única, imutável e eterna coisa, como os gigantes de pedra da Ilha de Páscoa. Somos aquilo que julgamos ser e também o avesso disso. Aos tontos, isso parece incoerência; aos artistas, é matéria-prima — e, dessa tensão, costuma nascer a arte.

E, quando vê a luz do dia, a manifestação do artista já não mais lhe pertence completamente. Julia Mestre, por acaso, teria a dimensão exata de quantas pessoas dançaram e pularam no sofá ao som de Arrepiada? Sabe, com precisão, a quantidade de corações despedaçados que choraram ao ouvir Sentimento Blues? Quando criança, diziam-me que os filhos eram criados para se jogarem no mundo, e não para permanecerem no conforto do lar — o mesmo ocorre com a arte.

Foto: Gabriel Galvani / Divulgação

Por compreender isso, ao final do show Julia fez questão de estar presente com os seus fãs na porta do Teatro Popular Oscar Niemeyer. A beleza daquela multidão de admiradores não se resumia apenas ao caloroso encontro da cantora com o seu público — era o instante em que uma artista via, diante de si, as marcas concretas de um trabalho amadurecido e que ganhara vida própria. As noites mal dormidas, a busca obstinada pelo melhor acorde, as dúvidas e os recomeços haviam encontrado abrigo em pessoas que, sem conhecê-la, reconheceram algo de si naquelas músicas.

Coloco-me exatamente nesse lugar. Quando eu ouvi Maravilhosamente Bem pela primeira vez, no final do ano passado, percebi que estava diante de um disco ímpar na música brasileira. Ousado, denso, profundo e delicado, o mais recente álbum de Julia Mestre é, ao vivo, uma porta de entrada para o que os filósofos chamam de sublime. Naquela noite, porém, compreendi que certas experiências jamais cabem inteiramente nos livros. As luzes, os instrumentos e sua voz preenchiam o teatro, e os seus tímidos olhos davam corpo àquilo tudo, transcendendo os limites da linguagem. Confesso: fui tomado por um êxtase tão intenso que só consegui dormir às três da madrugada.

No dia seguinte, para lidar com aquela ressaca gostosa, fui espairecer as ideias na Feira da Praça XV. O dia era outro, a vida continuava e lá estava eu vivenciando uma tarde comum — que Deus salve e abençoe os nossos dias comuns, pois eles nos permitem enxergar o fantástico na vida. Pensei, então, que os tontos veriam em minhas reações um exagero, algo nem um pouco racional e sóbrio. Diriam eles que os artistas são apenas pessoas comuns. São, de fato, mas não o que fazem. Há muito tempo Homero voltou ao pó, e, ainda assim, continua respirando cada vez que alguém abre a Odisséia. É esse o maior triunfo da arte: oferecer ao homem, ainda que por alguns instantes, um belíssimo drible na morte.