A LIÇÃO DO ÓBVIO
Todo o mês de abril, quando se avizinha o aniversário de fundação da Folha dos Lagos — 36 anos —, ainda que não queira, me vem o desejo, quase compulsivo, de reviver como foi a concepção daquela primeira edição, no dia 30 de abril de 1990.
Nada de extraordinário, até porque essa avaliação simplista é parte de quem, além de jornalista, se fez por inteiro um homem de jornal. E o que difere um do outro é a entrega: aprender e exercitar quase todas as funções do fazer jornal — apurar, escrever, revisar, editar, fotografar, ser repórter —, mas também conhecer as habilidades da “cozinha” de uma redação: titular, chefiar reportagens e coberturas e editar.
Tudo isso parece pouco. Mas é de imensa grandiosidade, porque é história, sem a qual não teríamos hoje a estrutura moderna da comunicação. A imprensa de ontem deixou muitas lições, pena que, gradativamente, estejam caindo em esquecimento.
Recebi, nos primeiros ensinamentos do velho jornalista João Correa, no diário Folha do Comércio, que, para ser bom jornalista, é preciso ter informação e, para isso, “tem que ouvir A Voz do Brasil” todos os dias. Não é à toa que me angustio quando alguém evoca a abertura de A Voz do Brasil: “19 horas em Brasília”, tendo ao fundo a abertura da ópera O Guarani, do maestro Carlos Gomes.
Mais tarde, também tentei deixar alguma lição para estagiários sob a minha orientação: não escrevam complicado. A informação exige a simplicidade e a objetividade de um “bom dia”.
Mas o tempo voa. Já se foram 52 anos de imprensa. Agora, com a avançada tecnologia, “A Voz do Brasil” já não basta, e a simplicidade do “bom dia” não pode ficar para trás.
Só recomendo a urgente retomada do óbvio: o pleno respeito à verdade, sem inventar mais nada. Sem ela, a verdade, será impossível um amanhã com imprensa livre e democrática. E, pior ainda, ser profissional de imprensa ganhará outras denominações, menos jornalista. Podemos evitar essa extinção.
FRAGMENTOS 1
Lá na primeira escola, a Folha do Comércio, em 1973, descobri que, na mesma redação em que eu principiava no ofício, também trabalhara o imortal José Cândido de Carvalho, autor de obras memoráveis como O Coronel e o Lobisomem e Olha para o Céu, Frederico!. Mas, depois de José Cândido, nenhum outro jornalista do mesmo jornal chegou à Academia Brasileira de Letras.
FRAGMENTOS 2
Passei pelo jornal A Notícia, que por muitos anos foi o melhor diário de Campos dos Goytacazes. Lá, conheci Péris Ribeiro, falecido no ano passado. Perinho — como era chamado — protagonizou fato que entrou para a história. Coube a ele colocar na página o resultado do jogo Goytacaz x Sapucaia, partida de uma preliminar no Maracanã. Tarde da noite, na pressa de ir embora, o editor deixou espremido espaço para o título. Mas Perinho não se apertou: “Goyta fatura o Sapuca no Maraca”. E ficou na história.
FRAGMENTO 3
No mesmo jornal A Notícia, cheguei com 20/21 anos. E, aos 23, ganhei a editoria-geral. A rápida ascensão foi porque o dono do jornal, Hervé Salgado Rodrigues, se encantou com a minha matéria sobre os buracos nas passarelas e na pista da ponte General Dutra. Eram cerca de 150 de um lado, 120 do outro e mais uns 30 na pista. Contei um a um — parecia uma rua de Cabo Frio.
FRAGMENTOS 4
O excesso de fragmentos pode virar um livro, mas não é essa a intenção. Até chegar em Cabo Frio, em 1986, e fundar a Folha em 1990, exercitei a simplicidade do “bom dia” também na Folha da Manhã, O Fluminense, Estadão (free-lancer) e O Globo, na Irineu Marinho e na correspondência em Cabo Frio.
VALE A PENA
E, assim, neste mês de abril, na última edição do mês, a Folha dos Lagos celebra 36 anos de história. Convido os parceiros comerciais de todo este tempo a estar novamente conosco nesta edição histórica da Folha dos Lagos.


