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Coluna

Por onde recomeçar?

22 outubro 2026 - 13h01

Nos últimos anos, as noções populares da política têm sido cuidadosamente postas em campos polarizados. Isso não seria necessariamente uma novidade, caso tivéssemos neles representações de segmentos distintos da sociedade, com seus interesses e concepções, formando as contradições pelas quais as engrenagens da história se movimentam e, nesses movimentos, o desdobramento da lide sob variadas formas, das reformistas às revolucionárias (ou mesmo reacionárias!) 
Mas as formas atuais são surpreendentes, uma vez que o que tem mobilizado e colocado as pessoas nesses polos (ou os empurram para fora deles, na apatia dos que se abstém do voto e da vivência política), são noções relativas, abstratas e simbólicas. Nesses termos, a política vem mudando de órgão, migrando do cérebro para o fígado, e dele para o coração. E tudo isso não é por acaso. Em ambos os lados encontraremos trabalhadores, pobres, usuários de programas sociais, minorias, profissionais liberais, representantes dos setores produtivos, e outros tantos. O que os une e o que os separa?  

A arquitetura da polarização foi uma obra talhada pelo extremismo (e o neofascismo brasileiro é uma das suas formas). Misturar é confundir, e quem confunde domina mais facilmente. Colocar as pessoas para se digladiarem euforicamente em torno de noções do tipo “bem” e “mal”, “certo” e “errado”, “sagrado” e “profano” é muito mais fácil do que construir propostas e soluções para problemas reais. Essa divisão polar coloca o existir do outro como uma ameaça a ser combatida com as tintas do ódio, da violência, abrindo a caixa maldita de onde saem e prevalecem todos os demônios da ignorância e do desprezo pela civilidade. 

Nesse terreno reducionista é mais fácil construir castelos de mentiras, dizer que defende uma coisa e ao mesmo tempo praticar o seu oposto, de insinuar que tudo vai mal sem nem ao menos dar provas concretas disso. Fazer crer que não há diferença fundamental entre as camadas sociais é outra armadilha, temperada com o abuso da ingenuidade de que o alcance da prosperidade é só uma questão de escolha. E, cinicamente, proclamar isso como liberdade! Mas não existe liberdade sem a independência material. Quem não tem como prover a existência não é livre para escolher nada. Esse será o desafio do recomeço político contemporâneo, o de considerar as múltiplas facetas da complexidade, mas ancorar novamente o debate na soberania, no desenvolvimento, justiça social, trabalho, renda e prosperidade mediadas e planejadas pela sociedade nas formas do estado democrático e do governo popular.

Até porque essa arquitetura da polarização posta pelo extremismo é apenas uma fachada útil para interesses materiais, econômicos, cimentados com uma ética para lá de duvidosa. E ela precisa dos braços dóceis de quem vai apertar o nó em volta do próprio corpo, o povo.

Recomeçar será uma necessidade inescapável. Só nos restará saber qual será o ponto de partida, a planície da esperança ou o fundo do poço.