Memória do sal: um tempero de gestão que nos faz falta ao paladar

Publicado em 23/02/2018 às 21:13

POR IVO BARRETO*

Nas últimas semanas temos convivido com um intenso debate suscitado pelo início da construção de um estacionamento em uma área das antigas Salinas Peroanas, em Cabo Frio. Trava-se uma batalha de argumentos e busca de documentos, averiguando-se, nas mais distintas variáveis, se o processo conta com o devido processo legal, se o licenciamento cumpriu todas as etapas, de quem é o terreno, quem explora, quem deixa explorar. Enfim, se pode ou não pode, esta é a busca principal e penso que seja bastante razoável que se esclareçam as coisas. O que mais me chama a atenção, no entanto, é outro aspecto, em especial: a existência física de uma antiga salina desativada e seu significado e valor, em si, não figuram no centro do debate da gestão.

Qualquer pesquisador ou interessado em história que busque entender a constituição da Região dos Lagos atual, do ponto de vista de seu desenvolvimento urbano, social ou econômico, não conseguiria chegar aos tempos atuais sem passar obrigatoriamente pelo papel da atividade salineira. Sem exceção, todos os estudos sobre as salinas que já tive a oportunidade de ler sempre fazem referência à existência secular da atividade, desde as técnicas de indígenas de cacimbas, ainda no século XVII, passando pelo quadriculado dos cristalizadores naturais das salinas de tradição portuguesa, ou até mesmo as estruturas pré-industriais e industriais de beneficiamento do sal, como a pioneira experiência do alemão Luis Lindenberg, em Perynas, em 1824, (primeira concessão particular, marco da quebra do monopólio da extração do sal pela Coroa), passando pela Cia Álcalis, no Arraial do Cabo (que baseava-se, dentre outras coisas, na existência do sal para sua proposta de viabilidade), até chegarmos à Sal Cisne, ainda em funcionamento. 

O Sal, sobretudo na virada do século XIX para o XX, era a principal atividade de produção de riqueza e mobilização econômica da região. Alguns autores defendem que a ideia da existência de um Ciclo do Sal não é algo tão distante, posto que, tal qual outras atividades econômicas brasileiras como açúcar ou café, também o sal mobilizou grandes transformações espaciais e até mesmo processos de migração. E se assim admitirmos, convenhamos, Cabo Frio é deslocada ao centro deste processo. E não falamos da Cabo Frio de hoje, mas do antigo Cabo Frio e suas dimensões imensas, que extrapolando os limites políticos do município de hoje, alcançam, por intermédio das águas calmas da Araruama, uma rede de salinas que, em um mosaico de rendilhados, ainda desenham as bordas d’água em lugares que hoje conhecemos por outros nomes, como São Pedro da Aldeia, Arraial do Cabo, Iguaba, etc.. Lugares que, embora autônomos hoje, ainda guardam características culturais bastante transversais, resultado de um mesmo processo histórico.

Pois bem, se por um lado, quando observamos de perto este imenso universo da extração do sal, somos capazes de compreender também a dimensão de sua capacidade de gerar impacto econômico, político e a imensa transformação física gerada no território da região, é preciso também compreender que a riqueza produzida em todo este tempo resultou ainda concentrada nas mãos de poucos proprietários e, como no século anterior, se vale da exploração da população negra e pobre do pós-abolição. O surgimento das leis trabalhistas no Brasil impacta nesta relação em meados do século XX, regulando distorções extremas e possibilitando lutas operárias na direção contrária desta realidade desigual, processos de extrema relevância à própria formação política da cidade.

Após o declínio do sal, que segundo o amigo João Oliveira Christóvão (autor do belíssimo trabalho “Cabo Frio: do Sal ao Sol”) tem na década de 1970 seu ponto de inflexão, o turismo de praia assume definitivamente o seu papel de protagonismo como ativo econômico regional, relegando às antigas áreas de salina um processo de agonia e interrupção de suas atividades, de esquecimento. Assim como as bordas d’água foram objeto de interesse econômico para exploração do sal, sendo intensamente repartidas, sobretudo a partir da vinda da Família Portuguesa ao Brasil, mais uma vez tornam-se alvo deste interesse, transformando-se lenta, ou rapidamente, em áreas para se ampliar o tecido da cidade e gerar riqueza. De maneira geral, mais uma vez, para poucos e à custa do apagamento das memórias sociais que ali se forjaram por séculos, memórias e narrativas de uma imensa massa de sujeitos, numerosas populações que, enfrentando um sol inclemente, foram parte fundamental para se construir o que é a cidade. Narrativas importantíssimas, mas pouco visitadas ainda hoje.

As salinas seguem em agonia, mas não morreram, pelo menos ainda não. O significado que um dia tiveram, este sim mudou. O salineiro, o dono de salina, já não ocupa o lugar político que ocupou nos séculos XIX e XX. Mas o que resiste ao tempo são os múltiplos significados que foram forjados na lida do sal e especialmente os saberes do ofício, de mestres salineiros, operários do sal, muitos ainda vivos, outros herdeiros destes saberes e ainda trabalhando nas poucas salinas em operação. Saberes que muitas vezes passam de pai para filho por gerações, relações que ajudaram a construir laços de solidariedade entre grupos e que, a meu ver, na companhia das atividades da potente pesca tradicional da região, são a linha forte e densa que ainda costura a identidade desta terra.

Até quando nossos gestores vão seguir fechando os olhos para o papel que estes espaços têm para nossa história e da diversidades de referências culturais que residem nestes quadros rasos, cataventos e barracões? Toda memória se materializa sobre um espaço, que é vivido e significado, tornando-se um “lugar” para um grupo. As salinas não são terras devolutas, terras sem sentido. São espaço social vivido intensamente, reconhecido por muitos sujeitos. Narrativas nem sempre reconhecidas, mas que já não podem ser ignoradas, gente cuja fala é dever de ofício dos gestores ouvir em escuta atenta, reconhecendo seu território, suas referências culturais construídas, pois é disso que se constrói uma sociedade. Fechar os olhos a isso, amigo leitor, é uma opção de gestão, pois felizmente o tempo é aliado da resiliência. Ainda há tempo de abrir os olhos.

*Ivo Barreto é arquiteto e urbanista, Mestre em Projeto e Patrimônio.

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