'Turista de qualidade é o que sabe se comportar', diz Thomas Weber

Hoteleiro em Búzios, novo presidente da TurisRio fala dos planos para o turismo na região

Publicado em 25/04/2019 às 10:26

TOMÁS BAGGIO

Nascido em Wesel, na Alemanha, e radicado em Búzios desde 1981, Thomas Weber ganhou notoriedade no meio turístico após longa carreira no setor. Proprietário de dois hotéis no balneário, Weber já foi presidente da Associação Comercial de Búzios, do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes e Bares (Sindsol) e do Convention & Visitors Bureau da cidade. Com a nova gestão do governo do Estado, foi convidado pelo secretário estadual de Turismo, Otavio Leite, a assumir a presidência da Companhia de Turismo do Estado do Rio de Janeiro (TurisRio).

Nesta entrevista, Weber fala sobre os planos para fortalecer o turismo na Região dos Lagos, antecipa o plano de criar uma nova agência de fomentos a projetos turísticos no estado e aposta na realização de estudos de capacidade de carga para cidades fortemente impactadas pelo fluxo de visitantes, como Cabo Frio, Arraial do Cabo e Búzios, entre outras.

- Para mim o 'turista de qualidade' é o que sabe se comportar. Não é baseado em recurso financeiro, se está pagando uma diária de R$ 50 ou R$ 5 mil. Porque uma pessoa de R$ 5 mil, se não souber se comportar, é uma tragédia. Então não é o valor per capta que vai nivelar o turismo. Todo tipo de turismo é importante, contando que seja controlado e bem trabalhado - afirma.

Veja a entrevista completa a seguir:

Folha dos Lagos - Como está o início do trabalho na TurisRio? Quais são os planos para a companhia?

Thomas Weber - Estamos arrumando a casa. O secretário de Turismo (Otávio Leite) colocou, e tem todo o apoio do governador, na ideia de transformar a TurisRio em uma agência de fomento. Os advogados estão preparando o projeto de lei, via Assembleia Legislativa. Estamos avaliando isso. E também existem ações em curso de fomento. Estamos participando de feiras, já estivemos na Alemanha, em Portugal e em São Paulo. São varias possibilidades de avanços.

Folha - Como seria essa nova agência de fomentos?

Thomas - Uma coisa similar ao que foi feito em São Paulo, com a Investe SP. Seria uma agência privada, como uma figura jurídica diferente e mais eficiente por ser privada. 

Folha - A TurisRio é uma empresa de economia mista. Deixaria de existir?

Thomas - A TurisRio tem imóveis, um quadro de funcionários. Isso não acaba assim, não é essa a intenção. O objetivo é criar uma estrutura nova e mais ágil, que seria essa agência de fomentos para fazer captação de apoios, patrocínios, uma série de possibilidades. Em uma empresa pública é mais complicado. 

Folha - Como ficaria a atuação da TurisRio, então? 

Thomas - A TurisRio é um órgão delegado do Ministério do Turismo que tem suas atribuições legais, como o Cadastur (cadastro dos prestadores de serviços turísticos), os guias de turismo, uma série de atividades. Essas coisas vão continuar pela TurisRio ou até poderiam ser assumidas pela Secretaria de Turismo. Mas em princípio a TurisRio segue inalterada. 

Folha - Seu objetivo seria migrar para esta nova agência de fomento?

Thomas - Não. De qualquer forma não seria uma decisão minha, e sim do secretário e do governador. 

Folha - Que ações imagina para o fomento do turismo na Região dos Lagos?

Thomas - O turismo é fortemente impactado por problemas na segurança ou no meio ambiente. Estamos focando em ações de melhorias na segurança. Tivemos um reforço (no policiamento) na (rodovia) Niterói-Manilha, estava tendo alguns problemas ali, isso influencia no acesso à região. Temos também em curso uma tentativa de redução do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) para combustível de aeronaves. Isso poderia dar um empurrão nos aeroportos de Cabo Frio e Macaé, além do Rio, é claro. Hoje o Rio perde em tráfego aéreo para outros estados por causa do valor do ICMS.

Folha - O aeroporto de Cabo Frio é claramente subutilizado para fins turísticos. Sabe-se que a grande movimentação é no setor de cargas e no transporte de trabalhadores das plataformas de petróleo. O que fazer para alavancar os voos de passageiros no aeroporto de Cabo Frio?

Thomas - Acredito que tendo uma redução no valor do ICMS já viabiliza melhor. E, obviamente, uma parceria com Prefeitura, Convention e hotéis para conseguir, com os operadores, montar pacotes acessíveis e interessantes para manter voos regulares o ano todo. Atualmente, só se consegue manter isso durante a temporada, porque as agencias de turismo e as companhias aéreas não querem ter o risco de manter um voo deficitário na baixa. 

Folha - Não é segredo que a Região dos Lagos tem potencial turístico muito maior do que aquilo que é aproveitado. Búzios ainda é uma cidade mais avançada em termos de profissionalização do turismo. Mas Cabo Frio e Arraial deixam muito a desejar. O que fazer para profissionalizar e qualificar o turismo na região?

Thomas - Toda a região careceu de um planejamento mais profundo nos últimos 20 ou 30 anos. Os municípios se desenvolveram de uma forma veloz e a infraestrutura de acesso não acompanhou. Essa dificuldade de acesso traz grandes problemas, principalmente na alta temporada e feriados. As pessoas ficaram apavoradas e pensam três vezes em ir no Carnaval, por exemplo, por causa do acesso. As estradas e tal.

Folha - Fala-se muito no termo 'turista de qualidade', e muitas vezes isso está associado ao poder aquisitivo do visitante. Existe 'turista de qualidade'? Como medir isso?

Thomas - Para mim o 'turista de qualidade' é o que sabe se comportar. Não é baseado em recurso financeiro, se está pagando uma diária de R$ 50 ou R$ 5 mil. Porque, uma pessoa de R$ 5 mil, se não souber se comportar, é uma tragédia. Então não é o valor per capta que vai nivelar o turismo. Todo tipo de turismo é importante, contando que seja controlado e bem trabalhado  

Folha - Qual é o caminho para corrigir a questão do acesso, superlotação, qualidade dos serviços prestados?

Thomas - Estamos tentando viabilizar os estudos de capacidade de carga para alguns municípios. Será muito importante para fazer um planejamento específico para cada lugar. 

Folha - Quando falamos em superlotação, a situação mais grave na região, provavelmente, é a de Arraial do Cabo. A cidade para quando está cheia...

Thomas - O que vai dar o parâmetro disso é um estudo feito por profissionais. Esse estudo vai levar em consideração vários pontos da infraestrutura. Energia elétrica, a questão viária, segurança, saúde, saneamento básico... Avaliar tudo que existe na cidade e depois fazer um cruzamento com o espaço geográfico. Um bairro com tantos quilômetros quadrados, com entrada e saída, pode receber tantos ônibus, tantos hotéis, e por aí vai.

Folha - Búzios e Arraial vinham tentando implantar uma taxa para quem visita a cidade. Existe uma ampla discussão a respeito da necessidade de controlar o acesso das pessoas, e o possível conflito deste controle com o direito de ir e vir. Qual é a sua opinião sobre isso?

Thomas - Entendo que, com base em estudo, você começa a avaliar as soluções para cada problema. Vamos dar um exemplo: em Cabo Frio tem a Praia do Forte. Digamos que ela esteja super ocupada, uma movimentação turística que esta demais. Então tem que criar atrativos para incentivar as pessoas a irem para a Praia do Peró. São diversas formas de criar outros atrativos. Em vez de só praia, pode haver um circuito cultural, religioso, de trilhas e esportes. Não necessariamente todo mundo frequentando uma praia com lotação já esgotada.

Folha - E em relação a essas taxas?

Thomas - Carece de estudo. O que que aconteceu em Bombinhas (SC) foi interessante, porque, antes de implementar, fizeram um estudo de quantos carros estavam entrando na cidade, quantos ônibus, vans, de onde vinham, e por outro lado um estudo de onde precisava aplicar recursos na área ambiental. E aí pensaram na taxa. Sem estudo não dá pra opinar nem favorável e nem contra.

Folha - Considera a experiência de Bombinhas positiva, então?

Thomas - Sim, acho muito interessante. Estão trabalhando há alguns anos e conseguiram fazer. Aparentemente com muito sucesso.

Folha - Com fazer para que o turismo na região deixe de ser totalmente focado no verão, com essa sazonalidade tão marcante entre os meses de alto faturamento, e o restante do ano na baixa? 

Thomas - A questão do planejamento do estudo de capacidade de carga traz muitas respostas sobre isso. Porque os meses de maio a agosto são a alta temporada na Região Serrana. São meses que não seriam de praia, digamos assim. As pessoas procuram frio, querem comer fondue, estar perto da lareira, essas coisas. Então vender somente praia em uma época que não é de praia é complicado. Tem que haver outras opções, que eu acredito que passam pela cultura, história, ecoturismo e várias outras opções. 

Folha - A TurisRio irá financiar projetos na região? 

Thomas - Seria maravilhoso. Mas sabemos que o estado vem de uma crise financeira muito forte. É um momento de recuperação. A TurisRio não é uma empresa que tem dinheiro. Mas tem contatos e tem o dever de ser o órgão delegado do Ministério do Turismo. Existe a possibilidade de captar recursos para projetos via emendas parlamentares e verbas de ministérios que possuem linhas de investimento. As prefeituras podem ter a nossa ajuda para captar esses recursos.

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