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Nascida de um desabamento e de uma crise política, Ponte Feliciano Sodré faz cem anos em Cabo Frio

Obra inaugurada em 1926 sem a presença do prefeito da época, cassado meses depois, ganha programação cultural de centenário nesta terça (14)

14 julho 2026 - 19h36Por Redação

Na manhã de 14 de julho de 1926, uma comitiva estadual desembarcou em Cabo Frio para inaugurar a ponte de cimento armado sobre o Canal do Itajuru. À frente dela estava o presidente do estado do Rio de Janeiro, Feliciano Sodré, que dava o próprio nome à obra. O prefeito da cidade, Anastácio Novellino, não foi convidado. Quatro meses depois, teria o mandato cassado pela Assembleia Legislativa. Foi o desfecho de um embate com o governo fluminense provocado, justamente, pela demora na construção da ponte.

Cem anos depois, a Ponte Feliciano Sodré chega ao centenário como um dos símbolos de Cabo Frio. Para marcar a data, a prefeitura organizou atividades culturais nas margens do canal nesta terça-feira (14 de julho de 2026), a partir das 8h, nas imediações da Estátua do Pescador. 

A história da travessia começa por um colapso. A antiga ponte de ferro Miguel de Carvalho desabou em 1920, deixando a cidade sem sua principal ligação rodoviária.

Segundo o livro "História de Cabo Frio – dos sambaquieiros aos cabo-Frienses (c. 3.720 a.C. – 2020)" (Sophia Editora), de Luiz Guilherme Scaldaferri e José Francisco de Moura, a situação motivava "queixas e solicitações desesperadas" dos moradores, que em 1923 chegaram a pedir uma ponte provisória de madeira ao secretário-geral do governo federal, em visita à cidade. Naquele mesmo ano, uma comissão de estudos foi formada sob responsabilidade da empresa Christian & Nielsem, com o engenheiro Renato Sebastiany. Mas, escrevem os autores, "a questão ficou em suspenso até o ano de 1925".

Foi quando Novellino, "cansado de esperar", denunciou na Câmara o descaso do governo estadual. De acordo com os historiadores Luiz Guilherme Scaldaferri e José Francisco de Moura, o prefeito afirmava que Sodré havia prometido para janeiro daquele ano o início da ponte e da estrada que ligaria Cabo Frio a São Pedro da Aldeia e que, além de não começar as obras, "ainda teria retirado o material que já se encontrava em Cabo Frio".

A queixa surtiu efeito: as obras começaram. Entretanto, abriu-se uma crise entre município e estado que terminaria com a cassação do prefeito em novembro de 1926. Para os autores, o batismo da ponte tinha também um recado político: o nome "servia para lembrar a elite política de Cabo Frio qual era o limite para a contestação dos poderes" e "o grau de dependência política da cidade".

Do ponto de vista da engenharia, a obra impressionava. "A ponte era um marco arquitetônico com o maior arco livre de cimento armado da América do Sul, com seus 62 metros, suportando seis toneladas", registra o livro. A a prefeitura a descreve como o maior vão livre do Brasil à época. A altura do arco central permitia a passagem, por baixo, dos veleiros que escoavam o sal pelo canal. Sobre o tabuleiro, os veículos cruzavam em via única, com sentido alternado.

Durante décadas, a ponte foi a única entrada e saída rodoviária de Cabo Frio. Em meados dos anos 1950, o governo estadual ergueu um aterro e construiu uma ponte no Baixo Grande, na antiga "passagem dos Tupinambá", criando novo acesso ao município e a Arraial do Cabo.

A via única, porém, cobrou seu preço com o crescimento da cidade. Em 1981, com engarrafamentos frequentes nos dois lados, discutiu-se erguer uma nova ponte ou duplicar a existente. A duplicação prevaleceu, segundo o livro, por ser "mais viável economicamente, além de uma solução mais rápida e que mantinha a estética do canal". Iniciadas na gestão do prefeito José Bonifácio — neto de Novellino, o prefeito preterido na inauguração de 1926 —, as obras foram concluídas no ano seguinte: em 31 de outubro de 1982, a ponte foi reinaugurada e passou a operar em mão dupla.

Na celebração dos cem anos da ponte, o secretário de Cultura de Cabo Frio, Carlos Ernesto Lopes, afirmou que a programação homenageia a ponte "não apenas como uma construção utilizada como passagem de veículos e pessoas, mas como um marco de integração".