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LITERATURA

Livro inspirado em Monte Alto, distrito de Arraial do Cabo, é finalista de prêmio literário no Rio

Em "Maresia corrói os dentes", escritora Érica Magni transforma vivências no distrito em literatura; cerimônia do Prêmio João e Júlia do Rio acontece nesta quinta-feira (24)

23 setembro 2026 - 17h57Por Kauã Barreto

Quando chegou a Monte Alto, distrito de Arraial do Cabo, em 2020, a escritora e poeta Érica Magni talvez nem imaginasse que passaria os três anos seguintes transformando as histórias daquele lugar em literatura. Havia se mudado para lá para fugir do caos da pandemia - e depois de um incêndio atingir a casa em que morava no Pontal do Atalaia. A experiência deu origem a "Maresia corrói os dentes", seu terceiro livro, que agora está entre os finalistas do Prêmio João e Júlia do Rio, promovido pela Flup (Festa Literária das Periferias). 

A cerimônia acontece nesta quinta-feira (24), a partir das 19h, no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, no Centro do Rio. Érica concorre com Édipo Ferreira, autor de Ponta D'areia, e Natasha Félix, de Três vezes Lázaro. Publicada pela Sophia Editora, a obra reúne poesia e prosa para retratar o cotidiano do distrito cabista, suas paisagens e as histórias de quem vive ali.

— É um reconhecimento que “Maresia corrói os dentes” merece: um livro escrito à margem, que carrega personagens e paisagens profundamente fincados no abandono — afirma a escritora de 40 anos à Folha. 

A maresia do título do livro, aliás, serve de metáfora para o desgaste social, ambiental e afetivo de um território que recebe turistas durante o verão, mas convive com problemas que permanecem depois da alta temporada. A autora de "Poérica" (Editora Cousa, 2019) e "Areia na Olhota" (Editora Pedregulho, 2023) percorre ruas, esquinas e vielas para construir uma narrativa sobre a vida naquela localidade. 

Érica vê Monte Alto como um lugar de belezas e contradições.  Destaca a riqueza de suas histórias e a relação dos moradores com o território, enquanto manifesta preocupação com o turismo predatório e a ausência do poder público.

— É um lugar encantado, que só se abre para quem está disposto a reconhecê-lo de verdade. Um lugar sagrado, berço de muitas belezas, mas também, infelizmente, de dores e histórias escabrosas. Acho que o respeito à natureza e aos antigos é um bom começo para qualquer experiência por lá — diz. 

O incidente em sua casa no Pontal do Atalaia aparece no livro e, segundo a autora, representou um desafio para sua escrita. 

— Com certeza, o incêndio me desafiou a ver algum tipo de beleza na tragédia. Acho que foi um ponto de partida muito duro, mas uma proposta irresistível de me superar, avançar limites, amadurecer como escritora — conta ela, que é finalista de uma premiação literária pela primeira vez. 

Para Érica, que também é jornalista, escrever sobre Monte Alto exigia cuidado com as palavras e com os personagens que encontrou ao longo do caminho.

— O território me deu muito, e por isso busquei devolver a Monte Alto um cuidado quase excessivo com as palavras e com os personagens que habitam o livro. Acho que esse reconhecimento é também um espelho dessa tessitura, que levei três anos para concluir. É um lugar fascinante para qualquer escritor — afirma.

Lançado oficialmente durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2025, Maresia corrói os dentes é todo feito de uma escrita "fragmentada, sensorial e afetiva", como descreve a própria autora. Tem ainda influências que passam por Conceição Evaristo, Hilda Hilst e João Cabral de Melo Neto, autores consagrados da literatura brasileira. 

Entre os eventos de divulgação, Érica guarda uma lembrança especial do lançamento realizado na Praça de Monte Alto, onde pôde apresentar a obra à comunidade que inspirou sua escrita. A recepção das crianças às ilustrações do artista visual Rapha Ferreira, que também assina a capa da obra, chamou a atenção da autora. 

— Elas amam as ilustrações. Foi sem dúvida o lançamento mais especial. Essa sensação me anima muito para continuar na divulgação da obra. Em geral, as pessoas ficam encantadas com o projeto gráfico do livro, que realmente é um primor, com capa de Rapha Ferreira, um artista ultra talentoso. Em tempos de AI isso é realmente um luxo! — diz. 

Nascida no Rio de Janeiro, Érica cresceu na Vila Kennedy, comunidade da Zona Oeste da capital, onde não teve contato com nenhuma escritora durante a infância e a adolescência. Ao chegar a Monte Alto, percebeu que sua presença no distrito poderia aproximar outras pessoas da literatura. Mais do que escrever sobre a comunidade, queria que seus moradores, especialmente os menores, soubessem que havia uma escritora circulando por ali.

— Comecei a ocupar esse lugar também para incentivar outras pessoas a escrever e contar suas próprias histórias — relata.

É uma experiência que também ajuda a compreender o significado da indicação ao Prêmio João e Júlia do Rio, criado pela Flup em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro para reconhecer pessoas e iniciativas que contribuem para a literatura, a leitura e a cultura da cidade. 

— Acredito que narrativas sobre as periferias sempre existiram na nossa literatura. O que vejo é que pessoas que cresceram à margem estão conseguindo, mesmo aos trancos e barrancos, contar essas histórias à sua maneira — afirma.

Érica conta que trabalha para levar Maresia corrói os dentes a novos públicos. Diz que trechos da obra já foram gravados no estúdio da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, com a atriz Joice Marino, que também assinará a dramaturgia de uma adaptação para audiolivro. A proposta, segundo ela, é disponibilizar o conteúdo gratuitamente. 

A escritora também revela que prepara uma continuação, intitulada Correndo Beirada, ainda sem previsão de lançamento.

— Antes dele, pretendo lançar “50 Dias com Minha Mãe — Uma viagem pela Amazônia”, um diário de autoficção. Será a primeira vez que publico um livro nesse formato – repara.