Enquanto a ausência de um Centro de Memória municipal deixa a história oficial de Cabo Frio em um limbo institucional, um grupo do Grande Jardim Esperança se movimentou para preencher essa lacuna. Fruto do Edital de Fomento à Cultura da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio do edital de Pontos de Cultura, o Centro de Memória Afro-Indígena Olhar da Perifa foi inaugurado no dia 25 de março, e funciona no CIEP 458 Hermes Barcelos.
O projeto surgiu a partir das oficinas e aulas de fotografia do coletivo Olhar da Perifa. As atividades eram voltadas para jovens da rede pública, que usavam as lentes como expressão de crítica social. A iniciativa ganhou corpo com a integração da pesquisa de mais de uma década desenvolvida pelo historiador Pierre de Cristo. O mapeamento dos pontos históricos situados do outro lado da ponte Feliciano Sodré, conduzido por ele em passeios que reuniram os jovens da oficina, estudantes da rede pública e usuários do CRAS do Jardim Esperança, revelou as memórias do extinto telégrafo, da estação de trem da Avenida Wilson Mendes, da antiga fábrica de cerâmica e das salinas. A ação foi o pontapé que faltava para democratizar uma narrativa frequentemente negligenciada.
– O Centro de Memória Afro-indígena não é um centro de memória municipal geral. Ele atua com fragmentos voltados à história da escravização africana e indígena, que dialoga com a história geral da cidade de Cabo Frio. Não podemos apagar a história dos povos originários e tradicionais dentro da história geral da cidade. Neste sentido, o Centro de Memória Afro-indígena tem suas raízes primárias no segmento africano, indígena e no histórico do território do Jardim Esperança – detalhou Pierre de Cristo, que atua como curador voluntário do espaço.
Embora a estrutura funcione de maneira comunitária dentro de uma escola pública, a amplitude do acervo rebate a lógica de que o conhecimento de qualidade reside apenas nos centros urbanos. São mapas detalhando antigas fazendas escravocratas, inventários que listavam negros e indígenas como bens, e registros de navios negreiros que desembarcaram na região da Baixada Litorânea.
– A amplitude é enorme, pois é um trabalho desenvolvido há muitos anos, com pesquisas nas principais instituições do Brasil, como Museu Nacional, Arquivo Nacional, Museu da Justiça, entre outros, onde existe uma grande parcela de documentação sobre o tema afro-indígena, que faz parte da história oficial da cidade de Cabo Frio. E isso dialoga inteiramente com a história da cidade, uma vez que estamos falando sobre a escravização de seres humanos que vieram pela diáspora para construir essa cidade, casas, ruas, economia. Fizeram a riqueza desta cidade com mão de obra de seres humanos que foram escravizados. Desta forma, sempre vão dialogar com toda a cadeia política, social e institucional da cidade – argumenta Pierre.
O acervo físico conta com cerca de 500 livros doados do acervo pessoal de Pierre, com a temática afro-indígena. São obras não só de autores negros, mas também de pesquisadores e historiadores que lançaram obras relacionadas à escravização afro-indígena. Há também doações expressivas, como a linha do tempo da história africana cedida pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), o catálogo da trilogia da Pequena África do Instituto Pretos Novos (IPN) e materiais da Fundação Palmares. Recentemente, o espaço recebeu uma visita técnica e o reconhecimento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A montagem técnica e a catalogação do material receberam o apoio acadêmico de Thamires Oliveira, responsável pelo acervo de Dona Urozina no Museu da Maré, no Rio de Janeiro. A base histórica também foi enriquecida de maneira espontânea por pesquisadores independentes.
– Não houve seleção de parceiros. Simplesmente pessoas acreditaram em nosso projeto. Entendo que era mais do que necessário falarmos sobre esses povos que foram apagados da história de forma proposital. Pouco se fala sobre a escravidão em Cabo Frio. Neste sentido, ganhamos muitos parceiros pelo Brasil afora, e que estão a cada dia mais envolvidos no Centro de Memória Afro-indígena Olhar da Perifa – pontuou o curador.
Responsável pela supervisão técnica do Centro de Memória comunitário, Thammy Carvalho contou à Folha que entre os parceiros do espaço também estão a Coletiva Gecay, de São Pedro da Aldeia, que reúne mulheres historiadoras e pesquisadoras. Citou, também, o apoio de Maria Werneck, filha do historiador Márcio Werneck, que doou grande parte do acervo manuscrito para o espaço. Segundo Thammy, “Márcio foi um grande jornalista e fotógrafo que registrou essa parte da escravização afro-indígena na região”.
Apesar de contar com relíquias materiais impressionantes (incluindo um giramundo, antigo objeto de ferro utilizado para torturar e castigar os escravizados que tentavam fugir), Thammy aponta que o projeto enfrenta barreiras invisíveis impostas pela própria elite intelectual da cidade.
– Nós publicizamos todo o processo de formação. Fomos nas rádios, nos jornais, a Folha dos Lagos fez divulgação, temos as nossas redes sociais. O espaço foi divulgado para pessoas do Rio que vieram na inauguração. Tivemos a presença do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, instituição com 37 anos de atuação em pesquisas sobre culturas negras, além de representantes do Pescarte, pessoas de Búzios, São Pedro e Araruama. Acho que as pessoas que não vieram, ou não tiveram agenda para vir, ou que desconhecem a proposta, não querem atravessar a ponte. Muitas vezes existe um certo preconceito em atravessar a ponte para acessar o conhecimento – desabafa Thammy Carvalho.
A supervisora técnica do Centro de Memória é categórica ao definir o fenômeno social que cerca a invisibilização da periferia.
– A gente fala muito sobre o racismo epistêmico, que justamente descredibiliza qualquer forma de conhecimento vindo de áreas periféricas, de pessoas negras, de territórios majoritariamente constituídos por pessoas negras ou periféricas. A gente precisa pensar, também, que há uma grande vontade de não tornar esses espaços visíveis. Infelizmente, tem sim uma classe que não gostaria de estar da ponte para cá. O Centro de Memória foi feito por muitas mãos, foi fruto de muito trabalho, de organização. Foi feito com dinheiro público e tudo foi prestado contas. É importante ressaltar o trabalho voluntário do Pierre, e o trabalho de esforço manual que nós tivemos de levar os livros, montar, pensar as mesas e a iluminação dentro das condições possíveis porque estamos dentro de um Ciep. É o Ciep fazendo seu papel fundamental de acolher a comunidade. Acho que falta, também, o esforço dos pesquisadores, historiadores e da classe artística de divulgar o que tem na periferia. Isso é notório, já que a gente também nem tem um espaço cultural efetivo municipal da ponte para cá. A gente tem espaço cultural da ponte para lá, como o Palácio das Águias, o próprio Charitas e outros pontos – critica a supervisora.
Essa descentralização promovida pelo Olhar da Perifa se estende para além das fronteiras municipais, servindo como base teórica que poupa pesquisadores de viagens longas até a capital do estado.
– O Centro de Memória preenche uma grande parte da história não só de Cabo Frio. Muitas pesquisas aqui são sobre Araruama, São Pedro da Aldeia, Búzios... A importância do Olhar da Perifa e do Centro de Memória é imensa porque eles democratizam o acesso ao conhecimento e à informação de forma descentralizada. Isso quer dizer que o acesso ao conhecimento não vai estar só no Centro, ele também vai estar na periferia. O acesso que se buscaria no Rio para pesquisa de mestrado, doutorado, ou simplesmente para conhecer a história, hoje a gente tem grande parte aqui – reforça Thammy Carvalho, refutando qualquer tentativa de rotular a iniciativa como meramente temática. “Compreendendo que o Centro de Memória não é somente do Jardim Esperança: ele está localizado no Jardim Esperança, assim como o Charitas está localizado no Centro de Cabo Frio. Tornar isso como uma coisa temática é inferiorizar toda uma história que constituiu a história de uma região. Não é um trabalho temático, é um trabalho histórico. E para garantir que todos tenham acesso a esse direito, já estruturamos ações para receber o público: as visitas acontecem por agendamento prévio (Instagram @coletivoolhardaperifa), sempre às terças e quintas-feiras, das 14h às 16h”, explicou Thammy.
O esforço está sendo reconhecido. A resposta do público e da comunidade acadêmica tem surpreendido a equipe. Segundo Pierre, o espaço tem recebido visitas de escolas públicas, privadas e universidades interessadas em explorar essa fatia cronológica.
– A procura tem sido bem grande, estamos até surpresos. É um tema que está sendo cada dia mais descortinado por historiadores e pesquisadores pelo Brasil e pelo mundo. Temos feito muita divulgação e estamos tendo retorno ampliado. Semana passada, a convite do Museu da Justiça, fomos palestrar justamente sobre o Centro de Memória Afro-indígena Olhar da Perifa. E temos recebido outros convites de instituições acadêmicas. A história afro-indígena, e do próprio território, vai sendo construída aos poucos, e estamos felizes por democratizar a cultura no bairro do Jardim Esperança – celebra Pierre de Cristo.
Para os interessados em colaborar, a instituição mantém critérios rígidos de seleção para novas doações, focando no enriquecimento consciente do acervo. A prioridade, segundo Pierre, é para livros de temática racial e antirracista, além de peças artísticas ligadas ao movimento negro, e registros históricos locais (como fotografias antigas ou jornais) das comunidades do Jardim Esperança, que podem ser doados definitivamente, ou cedidos temporariamente para digitalização e catalogação.






