Neste fim de semana a Região dos Lagos estará representada no II Festival Internacional Goitacá de Cinema, O curta-metragem "Quem sabe um dia?", idealizado, escrito e dirigido por Nicolai Helter, foi selecionado e vai representar o município de Armação dos Búzios. Neste sábado (8) a obra vai disputar o prêmio da "Mostra Olhares do Interior", categoria voltada para estimular novos talentos e difundir a produção realizada no interior do Estado do Rio de Janeiro. A exibição será às 18h30 na sessão 2 da Sala Cine Darcy, no campus da Uenf, em Campos.
Apresentado pelo Ministério da Cultura, Petrobras e Quiprocó Filmes, o festival começa nesta quinta (6) e segue até terça (11) municípios de Campos dos Goytacazes e São João da Barra. Foram mais de dois mil filmes inscritos, mas apenas 67 foram selecionados para participar da Mostra Brasileira, Mostra Internacional, Mostra Zezé Motta, Mostra Cabrunquinho, Mostra Petrobras Futuro do Clima e Mostra Embratur.
A confirmação da vaga na mostra competitiva foi recebida com entusiasmo por Nicolai, que fez sua estreia na direção audiovisual em fevereiro deste ano.
– Receber a notícia da seleção foi uma doideira. Primeiro, em meados de junho, eu recebi um e-mail dizendo que o filme havia sido pré-selecionado e pedindo algumas informações complementares. Só isso já me deixou muito feliz, porque significava que alguém tinha assistido ao filme e enxergado alguma relevância nele. Depois disso, passei cerca de um mês numa expectativa enorme, até receber a confirmação de que o curta tinha sido selecionado para a Mostra Competitiva Olhares do Interior - contou Nicolai em conversa com a Folha.
"Quem sabe um dia?" teve uma produção relâmpago e sem orçamento. O diretor, que já planejava criar um filme em 2025, encontrou a motivação necessária em dezembro do ano passado ao saber do Festival de Curtas Metragens promovido pelo Gran Cine Bardot, de Búzios, para produções locais. Em apenas sete dias, Nicolai roteirizou, produziu, gravou e editou o curta de 15 minutos.
A trama mergulha nas raízes e no cotidiano de Búzios para narrar a história de um trabalhador de barraca de praia que vive um caso de amor intenso e breve com uma turista.
– A ideia veio de uma conversa com meu amigo Quissak: falávamos sobre contar a história de um dia na vida de um buziano. Aí eu conectei com vivências pessoais, características da cidade e finalmente cheguei na história do filme: um buziano, trabalhador de barraca de praia, que se apaixona por uma turista de férias no Brasil. Os dois vivem um romance intenso, mas breve, porque, com o fim das férias, a turista volta para o seu país. Por um detalhe banal, eles não trocam contato. Talvez o destino nunca mais cruze seus caminhos novamente, mas fica a memória de um amor de verão - contou Nicolai. Ele lembrou que além dos poucos recursos, o curta foi produzido com uma equipe também reduzida: Lara Salum, como atriz e coprotagonista, Sofia Eboli como atriz e assistente de direção, Amanda Ranieri como atriz e Arthur Cavalcanti como diretor de fotografia.
A dinâmica do turismo local atua como elemento central da narrativa, retratando a efemeridade e a intensidade das relações humanas que marcam a cidade costeira.
– Muitas pessoas que viram o filme relataram sobre a similaridade das histórias que elas também já viveram em Búzios, trabalhando com turismo. O trabalho turístico envolve o contato amplo e direto com o público, você cria conexões com pessoas muito diversas em personalidade, origem, costumes, e isso é muito enriquecedor. Por mais que essas conexões sejam efêmeras, de alguma forma elas nos marcam tanto que podem mudar completamente o rumo da nossa vida. O filme fala disso, e a forma como lidamos com o final dele é também sobre como lidamos com essas experiências - explicou o diretor, que também atua no curta.
Em conversa com a Folha, Nicolai revelou que a exibição no festival de cinema de Campos representa a conquista de um espaço fundamental para a sua estreia e para o cinema feito na região.
– Minha maior expectativa é assistir ao filme com o público e perceber como essa história atravessa as pessoas. Quero observar as reações, descobrir o que elas sentiram, o que compreenderam e se conseguiram captar aquilo que eu queria comunicar. Mais do que um possível prêmio, o mais importante para mim é o encontro do filme com o público. Estar no festival já representa uma grande conquista – afirmou.
Ele também contou que enxerga o evento como uma oportunidade de aprendizado, troca de experiências e ampliação de networking com outros profissionais do setor.
– Quero aproveitar o festival como um espaço de aprendizado e troca. Espero conversar com outros diretores, produtores, atores e profissionais do audiovisual, conhecer seus filmes e receber o máximo possível de feedbacks sobre o meu trabalho. Como esse é o meu primeiro filme, tenho muita curiosidade de compreender como profissionais do mercado enxergam a obra como um todo, desde a direção e o roteiro até a execução técnica e a minha própria atuação como protagonista – revelou Nicolai, lembrando que o mercado de cinema se move por encontros e que conexões em eventos anteriores já renderam novos projetos encaminhados.
Para o cineasta, levar uma narrativa produzida em Búzios para outras plateias é um passo importante para reforçar a identidade do interior e dar visibilidade ao cinema independente da Região dos Lagos. Segundo Nicolai, embora essa produção regional ainda esteja se estruturando, a presença em festivais mostra a força de um movimento real de criadores locais, onde cada nova obra ajuda a consolidar o setor na região.
Além disso, a conquista ganha um significado especial por se tratar de um projeto realizado sem orçamento. Segundo ele, a seleção da obra serve como uma demonstração prática de que produções independentes têm viabilidade e alcance no circuito cultural, provando que é possível tirar uma ideia do papel e alcançar espaços relevantes no cinema mesmo sem grandes investimentos ou acesso ao mercado tradicional. Já a viagem e a presença da equipe no festival foram viabilizadas por meio de uma mobilização comunitária em Armação dos Búzios.
– Recebemos doações de pessoas de Búzios que acreditaram no projeto. Graças a esse apoio, conseguiremos levar parte da equipe para representar o filme. Estar lá, apresentar nosso trabalho, encontrar o público e criar novas conexões já será o nosso maior retorno. Passei grande parte da vida sem saber exatamente o que queria fazer. Hoje, finalmente sinto que encontrei algo que faz sentido para mim. Às pessoas de Búzios, só tenho a agradecer. Búzios está indo para o mundo junto com o nosso filme. Foi por meio da cidade, das suas paisagens, das suas pessoas e das histórias que ela nos oferece que esse curta pôde existir – explicou Nicolai.




