O poeta Victorino Carriço, apelidado carinhosamente como "Santinho", nasceu em 29 de julho de 1912, em Cabo Frio. Em 12 de abril de 1997, a Folha dos Lagos dedicou a página 3 do suplemento cultural Caderno à sua obra. A página reproduziu o prefácio que o professor Ayrton Christóvam dos Santos, o Tonga, escreveu para "Mar e Amar", primeira obra poética de Carriço, em março de 1965. Tonga morreu em janeiro daquele ano de 1997, três meses antes da publicação.
O texto descreve poeta como um homem simples, cuja inspiração vinha do cotidiano de Cabo Frio. Do próprio Victorino, a página trouxe os sonetos "Não" e "Crepúsculo", além de um texto em prosa sobre o ofício de escrever, no qual afirma: "no jardim do Poeta, todas as flores têm espinhos".
"É preferível uma careta sincera do que um sorriso hipócrita" — Victorino Carriço.
Leia abaixo o texto completo:
Folha dos Lagos — Caderno, p. 3
Sábado, 12 de abril de 1997 — Região dos Lagos
A arte de Santinho
A arte de Victorino Carriço e a paixão do professor Ayrton Christóvam dos Santos, o Tonga, pela genialidade do poeta
(*) Tonga
"Não pense que vou me colocar na posição de frio e imparcial julgador do seu trabalho. Não. Primeiro, porque a frieza é incompatível com a maneira de eu apreciar as boas coisas feitas pelos meus amigos. Segundo, porque a imparcialidade, ainda que eu confesse a minha fraqueza, não poderia existir de mim para você; sendo eu o juiz. Resolvi então, deixar aos críticos o julgamento cru da sua obra. Eles que digam de escolas e tendências, de rima e de métrica da sua poesia. Eu li e gostei. É tudo. Não me proponho daqui, analisar o que está escrito, mas, sim, quem escreveu.
Pretendo apenas, dizer da minha satisfação, por ver que quando começam a lhe tingir os cabelos, os primeiros respingos brancos, você cumpre a promessa de fazer publicar um livro escrito por você. Isso pra mim é suficiente.
Bem sei, que esse livro é fruto da sua imaginação, da sua insaciável sede de viver no belo e irreal mundo da poesia. Sei que é o somatório de muitas horas de introspecção, sozinho diante do mar, fitando a branca onda que se corcova na imensidão líquida; ou a fugidia gaivota, que acena do azul infinito. Sei que o cenário de "Mar e Amar" é esta terra florescente que trescala sutis aromas do solo semi-virgem. Sei que é fitando o serpentear infindo das areias da Praia Grande; ou a eterna resistência do Forte São Matheus, que busca o ritmo de um gostoso soneto (...)
Dizer, por exemplo, que você é um homem simples, um amigo simples, um poeta simples. Que tem no seu pequeno e pródigo mundo cabofriense, o grande êmbolo que impulsiona sua inspiração. Que as suas rimas saltam com a cadência monótona da lânguida onda, que se esparrama preguiçosa, na alva areia da Enseada dos Anjos.
Dizer que você é um homem singular, porque encontra a cada fato comum do cotidiano, uma razão de ser, para a sua filosofia da vida; suas máximas e pensamentos.
Que você é capaz de filosofar desde uma simples derrota do América, seu clube, até o mais aflito estado d'alma de um amigo seu. (...) Dizer finalmente que você tem um coração grande, como grande é amizade que lhe dedico... e diria muita coisa ainda.
Cabo Frio, março de 65."
() Transcrito do livro "Mar e Amar". Ayrton Christóvam dos Santos, o Tonga, prefaciou os três livros de Victorino.
*
Não
Victorino Carriço — Transcrito do livro "Mar e Amar" (1965)
Quando eu morrer, não quero que ninguém,
Lamente a Minha morte, por favor!
Ninguém me quis, não encontrei alguém,
Que neste mundo me tivesse amor.
Caminhei só e sofri também,
Bebi na vida a taça do amargor.
Falsos soluços e prantos por desdém;
Não levam a minha alma ao Criador.
Prefiro espinhos do que flores dadas,
Por mãos que outrora a mim foram negadas;
Com asco de apertarem as minhas pobres mãos.
Me deixem em paz, então, no Campo Santo;
Na cova funda, areia como manto,
Sepultarei os meus desejos vãos.
*
Crepúsculo
Victorino Carriço — Transcrito do livro "Se Voltares..." 1970
Zizi, senta-te a mim, estamos a sós.
Preciso preparar-te: estou chegando ao fim...
Choremos as ilusões que já deixaram nós,
Eu choro a mocidade que já passou por mim...
A lei é imutável: nascer... viver... morrer... Não houve a minha voz?...
Chega-te mais... olha-me sempre... Porque chorar assim?...
Sigamos a realidade; eis a verdade atroz!
Se somos tão felizes, que queres mais enfim?
O nosso matrimônio abençoado foi, graças a Deus;
Um lar cristão, graças a ti, ensinamentos teus;
Buscando em orações o nosso Criador.
Na minha luta inglória e tão desesperada...
Deixo-te apenas os filhos, um lar; é pouco, é quase nada.
Mas ficará contigo esta certeza enorme do meu grande amor...
Seja qual for o destino de meus versos, eu ficarei satisfeito.
Não foi fácil chegar ao fim; e quão difícil foi ter começado.
A estrada do poeta é longa; e a minha não poderia ser diferente.
Quantas desilusões!... Quantos sonhos desfeitos!
Quantas perdas irreparáveis. Entre outras coisas a minha mocidade... Ah! a mocidade! Como é preciosa e, como passa depressa. É a fase da velocidade. A minha tinha asas: parece que voou. Quantas ingratidões! Amigos entre aspas: colegas vaidosos, e outras coisas mais. Depois de tudo isso, a gente fica num estado de morbidez, estado esse, que nos faz triste para o resto da vida. Por isso que dizem que o Poeta é um homem triste. Concordo.
No jardim do Poeta, todas as flores têm espinhos. Muitos sofrimentos, poucas alegrias. O sofrimento em nós é igualmente a parasita na árvore: agarra-se, cresce e vive a existência da árvore. A alegria em nós é igualmente a essência em vidro mal arrolhado: evapora-se.
Transcrito do livro "Mar e Amar", de 1965.




