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Coluna

O Fim do Chaguismo

O estado de calamidade pública decretado pelo governo do estado do Rio de Janeiro não é um fato isolado na história. É obvio todo processo de degeneração não pode ser atribuído única e exclusivamente ao acaso, pressupondo que se trata apenas de uma má sor

18 junho 2016 - 17h01

O estado de calamidade pública decretado pelo governo do estado do Rio de Janeiro não é um fato isolado na história. É obvio todo processo de degeneração não pode ser atribuído única e exclusivamente ao acaso, pressupondo que se trata apenas de uma má sorte já que os administradores são os melhores do mundo. Longe disso. Os responsáveis têm nomes, sobrenomes e culpa no cartório.

Entretanto, o Rio não faliu apenas economicamente. Faliu também politicamente. O modelo que hoje é representado pelos atuais mandatários é uma herança aprimorada do chaguismo. Chagas Freitas foi governador da Guanabara (1979/1983) pelo Movimento Democrático Brasileiro, futuro PMDB. Graças a sua “inovadora” maneira de governar, fez escola. Primeiro, foi um mandato absolutamente permeável e alinhado com a ditadura que, teoricamente, estava no campo partidário adversário.

Em segundo, preparou criteriosamente o cimento do seu grupo político a partir de generosos e largos apadrinhamentos, utilizando para isso, o rateio de todo e qualquer espaço público. Desse modo, permitia que seus agentes tivessem certo grau de poder dentro das nomeações que conseguisse, mas, sem perder o foco da fidelidade e da adesão ao chefe. Em terceiro e último, soma-se a isso o uso da imprensa (era proprietário de um jornal) e dos mais elaborados estratagemas de apropriação da coisa pública mediante esquemas clientelistas viciados (tudo que é feito dentro da lei para melhor burlá-la...).

Mesmo entremeado por tendências igualmente fortes no governo, como o brizolismo, o chaguismo nunca se foi. Manteve-se como herança de longa duração. Ele continuou até agora mostrando vitalidade e capacidade de vencer as disputas de modo pragmático. Quem não conhece um político que começou ideológico e que depois não vendeu a alma, os interesses dos eleitores e todo o resto em troca de vencer uma eleição?

O problema é apenas um. Esse tipo de esquema político só consegue funcionar em tempos de vacas gordas... De preferência obesas. Quando elas ficam magras e somem no brejo, os grupos passam a se agarrar ao que sobrou do céu. Voltam-se aos pequenos grupelhos, unindo deputados, prefeitos e vereadores num abraço de náufragos. O eleitor mal percebe. O fim do chaguismo pode ser um benefício para o Rio de Janeiro.

Para o eleitor apenas um indicador: se os que ainda vivem a política dessa maneira estiverem interessados em se manter no poder, é porque sobrou capim no pasto. E se tem alguma sobra, caro votante, experimente deixar nas mãos de quem sabe plantar presente e futuro. Afinal, desse fruto você também poderá comer.

(*) Antônio de Pádua Chagas Freitas foi governador do antigo estado da Guanabara entre 1971 e 1975 e do estado do Rio de Janeiro de 1979 a 1983. Morreu em 1991, aos 77 anos.

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