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Coluna

A Universidade e a Rua

Eu não sei se eu já escrevi isso aqui nesta coluna, mas considero Roberto da Matta um dos maiores cientistas sociais que o Brasil já produziu. Apesar da campanha contra, este país já produziu muitos cientistas sociais cujas obras são de uma utilidade inco

13 agosto 2019 - 15h35

Eu não sei se eu já escrevi isso aqui nesta coluna, mas considero Roberto da Matta um dos maiores cientistas sociais que o Brasil já produziu. Apesar da campanha contra, este país já produziu muitos cientistas sociais cujas obras são de uma utilidade inconteste. O problema todo é, para variar, lê-los, entendê-los e tentar aplicar suas ideias.


Em um dos seus livros, “A Casa e a Rua”, Roberto da Matta aponta que uma das características de nossa sociedade é essa separação e hierarquia entre aquilo que é “de casa”, e aquilo que é da ordem ‘da rua’. A separação entre o “público” e o “privado” não é apenas espacial, ou seja, “da porta para fora” de nossas casas opera uma outra realidade, distinta daquelas que governam a vida privada. Não, essa separação, segundo Da Matta, é também uma diferença de valor, “ o privado” passa a ser mais importante do que o público.


Quando o Presidente da República invoca essa “lei”, a da primazia do privado em detrimento do público, para justificar a defesa da tese de escolher um membro da família para o cargo público de Embaixador do Brasil em Washington, o que estamos assistindo é nada mais do que a prática daquilo que Robert da Matta escreveu em seu livro.


Mas já falaram demais do filho de Bolsonaro, e suas pretensões à alta diplomacia. A dicotomia que me interessa aqui é outra, e no meu entender mais importante até do que essa. Trata-se da dualidade “Universidade” x “Rua”. O que quero dizer com isso?


Da mesma maneira que existe uma cisão entre um padrão de comportamento na esfera pública, e outro na vida privada existe também, uma profunda separação entre aquilo que se produz e se passa no interior das universidades públicas, e aquilo que existe “aqui fora”, na realidade das ruas.
Explico por que dedico essa coluna a tal tema. 


É desnecessário repisar argumentos em favor da importância e da necessidade das universidades públicas para nossa sociedade. Já está mais do que comprovado, com uma avalanche de evidências, que se (ainda) existe “pesquisa científica” no Brasil, ela é feita basicamente pelas universidades públicas. Nem a iniciativa privada, e nem as universidades privadas contribuem de maneira significativa para a produção de conhecimento no Brasil.
No entanto, apesar de sua importância estratégica, as universidades públicas mantém um diálogo muito pequeno com a sociedade civil, de uma maneira geral. Por que? Em tese, o maior “cliente” da produção científica produzida nas universidades públicas é o próprio Estado Brasileiro, que consome esta produção por meio da criação de financiamentos de projetos de pesquisa, custeados pelas suas agências de fomento federais, ou estaduais.


Ora, enquanto houver demanda por parte deste mesmo Estado, as universidades e por extensão, a comunidade científica não se sentiu obrigada a prestar contas de sua produção àquele que no final das contas foi, e ainda é, o verdadeiro cliente da pesquisa científica, que é o contribuinte brasileiro.
Resgatando aqui a imagem criada por Roberto Da Matta, é como se houvesse uma linha divisória entre a “Universidade”, de um lado e a “Rua”. A coisa toda se passa como se estas duas entidades não tivessem nada a ver uma com a outra. Engano.
Sem o dinheiro do contribuinte, não há literalmente pesquisa. O “MEC”, assim como o Ministério da Ciência e da Tecnologia são intermediários destes recursos, mas não são os seus produtores. O dinheiro para todos os efeitos vem do contribuinte. No entanto, essa realidade nua e crua só é lembrada, quando a outra parte, a “Universidade” se dá conta de que sem os recursos da “Rua”, ela não consegue sobreviver.
Essa dicotomia que adaptei da fecunda metáfora de Roberto da Matta é mais interessante e promissora do que imaginamos, e merece ser analisada em mais espaço do que apenas uma coluna.         

 

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