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Coluna

O precário pedagógico

09 maio 2022 - 11h10

Com a retomada das aulas presenciais, os impactos da pandemia no processo de ensino-aprendizagem já começaram a aparecer de modo significativo, suas causas e efeitos. O que por hora vem chamando a atenção de modo mais significativo são as mudanças comportamentais causadas pelo, crê-se a princípio, afastamento compulsório do espaço escolar devido às medidas de isolamento. Não que as tais medidas tenham sido exageradas ou equivocadas. Quem vive o dia a dia da educação sabe que essa foi a alternativa mais segura quando o prioritário era preservar vidas, sobretudo no período no qual não havia vacinas disponíveis. Se hoje, com os recursos e conhecimentos disponíveis percebemos que o uso adequado de máscaras e os protocolos protetivos são, quando muito, uma peça de ficção na grande maioria das escolas públicas, dá para imaginar o estrago de uma contaminação ainda mais abrangente, caso tudo funcionasse como atualmente.

No retorno, pelo menos dois cenários comportamentais se mostram presentes. Alunos e profissionais da educação manifestando dificuldades na retomada das relações sociais, seja pelas desordens psicológicas (como a ansiedade, síndrome do pânico, depressão, fobias e outros) ou pela explosão dos casos de violência, depredação e quase completa desconsideração do espaço escolar como um local educativo. Na verdade, esses problemas já existiam, sendo potencializados ou ressignificados sob as novas condicionantes da realidade. 

Já os estragos pedagógicos são, como dissemos, consideráveis. Antes da pandemia já havia déficits de aprendizagem bastante significativos. Com as restrições e a dramática e desordenada transmissão de conteúdos com irrisório aproveitamento, nos encontramos diante de lacunas que, somados aos problemas que já existiam antes, exigiriam no mínimo cinco anos para um maior equilíbrio. Entretanto, essa consideração também não é absoluta. Não é de hoje que a burocratização e a ditadura das evidências ultrapassaram em grande distância a efetividade do pedagógico. O importante é preencher formulários, comprovar carga-horária, enviar comprovantes, escrever o que tem que ser escrito para justificar o injustificável. Recuperar o pedagógico não é uma questão de tempo. Mais cinco anos de uma educação ruim não consertará nada. Mas já conhecemos o velho discurso na educação pública de que “qualquer coisa é melhor do que nada”. E assim caminhamos.

Durante a pandemia muito se falou sobre as metodologias ativas e a incorporação das novas tecnologias educacionais, ou seja, o desafio de recuperar os alunos passaria pela vontade e pelo “furor” pedagógico dos professores. No retorno, as escolas ainda inseguras, ainda sem recursos tecnológicos decentes, ainda sem o mínimo de estrutura, alunos sem livros, professores sequer com canetas e apagadores, início sem identidade pedagógica, redes sem uma diretiva clara, coerente e convivendo com as idas, vindas e conflitos de ordens que, das altas rodas administrativas, oscilam entre a incoerência ou a mera falta de aplicação prática.

Nossos alunos até tem usado mais o celular e as redes móveis nas aulas, mas para ver vídeos, escutar música, postar fotos nas salas de aula, conversar no Whatsapp. Ou seja, até agora, o legado tecnológico está concentrado apenas no aspecto recreativo. Aliás, um dos dramas do retorno é justamente esse, a tentativa desgastante para convencer nossos jovens alunos de que a escola é um local de estudos e aprendizagens. Claro que isso demanda aulas dinâmicas, mas muitos se perguntam como fazê-las em meio a tanta precariedade e limitações? Voltamos aos velhos embates de sempre... Como solução, as proibições e repressão ao uso, a conformação da aula possível e o controle dos corpos. E o pedagógico, no lugar onde ele estiver, aguarda.

(*) Paulo Cotias é professor de História.