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Coluna

Fugas e perspectivas

05 novembro 2026 - 14h59

Toda vez que uma eleição se encerra, recomeça a liturgia característica da nossa democracia: a composição. Os movimentos, claro, ainda são furtivos, nas sombras, nos bastidores e nas articulações.

Em nossa cultura política, sobretudo nas planícies do Centrão, a crença mais fundamental é a de que o pior lugar para se estar no tabuleiro é fora dele. Nessa tradição inventada, as ideologias curvam-se graciosamente ao pragmatismo, uma vez que a política se faz com espaço e este, nas cimeiras do poder, se materializa em cargos, indicações, acesso a verbas e posições de prestígio.
Não é novidade. A história brasileira conhece bem a arte de acomodar derrotados. Com suas coalizões de ocasião, o país sempre preferiu absorver o adversário a aniquilá-lo. Essa vocação tem seu lado virtuoso, pois evita rupturas. Mas tem também o seu preço: tudo se acomoda, mas nem tudo se alinha.

Isso não significa que Lula IV terá facilidade. Lula III já mostrou que o preço da governabilidade e o da fidelidade são pagos em moedas distintas. Mas é notório o embaraço de boa parte da centro-direita com a embrulhada neofascista em que se meteu. Já há sinais dos que estão saindo de fininho, seja reconhecendo o resultado, seja dando de ombros para mobilizações de caráter golpista. A fuga, aqui, não é de um só.
Parte considerável desse embaraço vem do candidato derrotado. Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno e esqueceu-se de que havia um segundo. Comportou-se como se eleito estivesse e, pior, no exercício do poder. Falou demais, e os mais antigos diziam que quem assim o faz dá bom dia a cavalo. Perdeu por mais de quatro milhões de votos, recusou-se a reconhecer o resultado e anunciou que pedirá a cassação da chapa vencedora.

Fugiu da justiça e do país, criando um enredo vitimista que só fala ao coração dos convertidos. Os demais ficaram no time dos constrangidos.
Para o Centrão e arredores, a questão é prática: quanto vale permanecer ao lado de quem contesta as urnas? Quem preza seu lugar no tabuleiro sabe que o radicalismo derrotado cobra caro e rende pouco. Eis a primeira perspectiva de Lula IV: compor com um Congresso, a princípio, adverso; lidar com a incógnita dos contestadores; e contar com uma massa popular disposta ao apoio, desde que mobilizada com pautas precisas e no timing certo. Governar com o povo passa a ser uma estratégia de sobrevivência e de ampliação do projeto político.

Mas a perspectiva se move para além da polarização. Lula buscou sua virada com medidas econômicas e sociais, e as urnas falaram de expectativas: renda, emprego, crescimento. Atendê-las é a melhor forma de manter o país longe da tentação golpista.

Rezemos (desde que não seja para pneus) para que as brasas do ódio virem apenas tristes cinzas. Enquanto isso, as engrenagens voltam a girar, e o desafio é transformar a virada em desenvolvimento, com paciência para negociar, firmeza para não ceder ao que não se negocia e atenção ao que o eleitor, afinal, pediu a todos nós.